sexta-feira, 31 de julho de 2009

ATÉ O CÉU ERA DIFERENTE


Pode chamar do que quiser: zimbório, firmamento, abóbada celeste. Todos esses nomes vim aprender muito mais tarde. Podem ser belos e sonoros, mas não contém a beleza do céu da minha meninice.


Aquele céu tinha lua cheia e lua vazia. E eu podia jurar (criança vive jurando) que via dragão e cavalo. São Jorge mesmo eu nunca vi. Era noite. Devia estar dormindo.

De noite as estrelas tinham um trinado leve e suave e pareciam piscar com muito mais vigor e intensidade.

E avião passando era disco voador.

O céu continua o mesmo.

Sou eu que hoje ando olhando pro chão.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

VIVENDO DAS LETRAS


Depois de algum tempo de relativo sucesso, dois livros publicados e algumas colaborações não remuneradas semanais em periódicos de circulação regional, decidiu que era hora de largar todo o resto e dedicar-se apenas às letras. Não ficara rico até o presente momento, esfalfando-se de trabalhar nas mais variadas atividades. Portanto tinha muito pouco a perder, cria. Estava convencido de que a carreira literária decolaria em sua plenitude, vôo de condor, que o único que lhe faltava para tal era tempo.

Convencera-se de que sua incipiente carreira era um monstrinho recém nascido, exigente e faminto, com a pequena bocarra sempre aberta, chorando por cada vez mais alimento, carinho e cuidados. E de que essa imagem era terna e altamente significativa. E abria sempre um sorriso largo, com os olhos rasos d’água, quando imaginava o pequenino monstro e seus primeiros trinados.

Estava decidido: o mundo precisava ver aquele monstro crescer, avolumar-se, conquistar seu espaço. Sacrificaria seus próprios interesses imediatos em nome dessa sacrossanta missão. Estava preparado para o trabalho árduo e inglório.

Tratou de comprar um computador novo, o último grito da tecnologia mundial. Uma confortável cadeira giratória, mesa, impressora, escâner (deve ser assim que se escreve, embora fique muito estranho). Internava-se durante horas no pequeno cubículo de sua casa que arbitrariamente chamava de escritório e onde nenhuma visita era bem vinda. No máximo e a muito contragosto abria a janela de vez em quando, para que entrasse um pouco de ar fresco. Ademais, permanecia hermeticamente fechado no que considerava seu santuário das belas letras.

Atacava com furor o teclado, escrevendo sobre tudo e qualquer coisa. Não havia limite para a sua capacidade criativa: versos, trovas, cordel, rimas e métrica, hai kais, prosa poética, crônica, conto, contículos. Gostava do humor. Cria-se perspicaz, irônico e ácido e acreditava que o humor era, muito mais que literatura, uma forma de levar a cabo sua missão de abrir os olhos do mundo para o que parecia que só ele estava percebendo.

O projeto do romance continuava martelando em sua mente. Algo sólido, denso, uma trama bem urdida, com personagens fortes, odientos um e sedutores outros, com um desfecho memorável e impactante. Algo que lhe pudesse render a pecha de maldito (venerava a idéia) e fosse digno de um Nobel (embora estivesse certo de que o prêmio seria dado a alguma oobra de menor valor e brilhantismo, por mera perseguição do comitê, o que, por si só já lhe valeria mais que o próprio prêmio). Mas enquanto tais personagens não surgiam bailando convidativos em sua frente, implorando por uma vida, atacava impiedosamente todos os estilos que considerava menores.

Perdeu completamente a noção de tempo e espaço. Passava dias a fio trancado em seu pequeno santuário (que a mulher já começara a chamar de mausoléu, ao que ele respondia com um leve menear de cabeça e um inaudível muxoxo; já era a crítica a infiltrar seus agentes dentro de seu próprio lar), esquecendo-se de comer, tomar banho, barbear-se, essas coisinhas básicas que parecem insignificantes até o dia em que deixamos de fazê-las.

Das despesas da casa, contas a pagar, colégio dos filhos e todos esses pequenos detalhes que tornam a vida tão normal nem tomava conhecimento. Acreditava-se no nirvana da literatura, pairando acima de todas as vicissitudes mundanas.

Até que um dia abriu de supetão a porta de seu escritório, saindo como se sufocasse: os olhos muito arregalados, os cabelos em total desalinho, a camisa aberta, as mãos comprimindo o pescoço e a boca arreganhada, como a exprimir um grito que não se ouvia, o que muitos chamariam um grito surdo, mas que talvez fosse melhor representado por um “grito mudo”.

Tateava pelos móveis da casa, não enxergava , esbarrava em tudo. E balbuciava, repetindo aterrorizado:

- A crise! A crise!

Sim, fora tomado pelo pior dos males que podem acometer um escritor: a crise criativa. Esgotara todos os assuntos possíveis, criara um sem-número de personagens e situações, das mais sem graça às mais cômicas. Até que um dia deparou-se com uma tela completamente imaculada à sua frente e não conseguia digitar uma palavra que fosse.

Em vão tentava buscar em jornais, revistas, sites de fofocas, televisão, algo sobre o que escrever. Mas a sua mente lhe devolvia um silêncio tão ameaçador quanto mil canhões calados.

Após vários encontrões com os móveis da casa, encontrou a saída, escancarou a porta, a luz do sol lhe cegava, cobriu os olhos, mas avançou heroicamente, como quem soubesse aonde ia. Precisava tornar à vida, reencontrar o mundo, o trânsito, os carros, a natureza, ver gente (ainda tinha uma vaga lembrança do que se tratava), buscar no movimento do mundo real alimentos para o seu monstrinho, que já não era mais tão pequeno nem inofensivo.

Partiu. Desapareceu sem deixar rastro.

A mulher só não entrou em desespero porque nem se lembrava mais de como era ter um marido. Mas sentiu-se na obrigação de comunicar seu desaparecimento às autoridades, família e amigos.

Fiquei tocado com a história, afinal de contas poderia (e como) ter acontecido comigo, e iniciei uma tímida investigação particular, usando de todos os meios possíveis para encontrá-lo.

Semana passada me chegou a notícia de um indigente que acampara há semanas na porta da Academia. Após vários alarmes falsos, ainda decidido a não esmorecer, resolvi investigar.

A imagem me chocou: um indivíduo macérrimo, pele e osso, coberto de andrajos do que um dia foram roupas casuais, descalço, o rosto macilento, um olhar vago, perdido, fixo num ponto qualquer entre o nada e lugar nenhum, vastas barba e cabeleira que o assemelhavam a um piteco.

Embora fosse impossível um reconhecimento visual, resolvi me aproximar e puxar assunto; ainda tinha esperança.

Parei à sua frente, esbocei um sorriso, balbuciei o que seria o nome de meu procurado.

Ele levantou os olhos lentamente, arregalou os olhos enevoados, escancarou a boca quase desdentada e implorou desesperado:

- Um trocadilho, pelo amor de Deus!

terça-feira, 28 de julho de 2009

COISAS DE CRIANÇA – AS PRIMEIRAS DESCOBERTAS CULINÁRIAS


foto: torta de café - autoria própria


Comer é bom.


Não. Comer é muito bom!!!

E desde muito cedo eu tomei consciência disso, embora a gula seja o meu segundo pecado capital predileto. Bom, naquela época com certeza era o primeiro disparado.

Se eu disser que sempre fui uma criança afeita à gastronomia vai aparecer gente questionando. Mas foi isso mesmo que acabei de dizer. Ainda sou uma criança. E ainda gosto muito de comer.

O fato é que estou com fome neste momento e de repente me bateu uma certa nostalgia gustativa. Embora muitos defendam o olfato como o sentido mais ligado à memória, a minha neste momento está cheia de sabores da infância. E hoje, menino de idade um pouco mais avançada que sou, por mais que visite os mesmos lugares (os que ainda existam) e saboreie as mesmas iguarias, jamais serão os mesmos.

Hambúrguer, por exemplo, tinha gosto de domingo à noite.

Tenho certeza de que muitos torcerão o nariz: - “Domingo à noite?! Credo!”. É eu também não gosto mais tanto de domingo à noite quanto gostava. Faustão, Fantástico e uma segunda-feira se aproximando um pouco rápido demais; fim do fim de semana. Volta ao ramerrão dos afazeres de gente grande.

Mas os domingos à noite de minha infância quase sempre tinha sabor de hambúrguer (e variações mais avantajadas sobre o mesmo tema) do Beliscão, na cabeça da ponte municipal. E coca cola.

Pizza tinha gosto de aniversário, algodão doce só na festa de Cachoeiro (herança bendita do nosso Rubem) e picolé era praia, férias.

Como bom gourmet mirim, ou um pequeno glutão, como queiram, sempre me interessei pelos bastidores da comida. Vivia “fuçando” na cozinha, observando, bisbilhotando. E acabei aprendendo alguma coisinha do que viria a se tornar o meu hobby preferido: a culinária. Tentei colecionar selos e moedas, mas ambos tinham um sabor horrível.

Lembro-me como se fosse ontem da minha primeira descoberta culinária: pode-se fazer pipoca em casa. Eu não cria no que meus olhos viam. Na minha incipiente mente infantil, pipoca era coisa que só se encontrava na saída da Consolação (a melhor do mundo, com saquinho de papel de seda – nunca mais encontrei uma igual) ou nos carrinhos estacionados ao longo da avenida Beira Rio. Descobrir que podia fazer pipoca em casa foi quase como obter a confirmação irrefutável de que Papai Noel existe.

Outra descoberta sensacional foi o brigadeiro. Reconheço que em todos esses anos, apenas uma ou duas vezes tive a coragem de esperar esfriar, enrolar, passar no chocolate granulado e comer. Quente e na colher fica tão mais gostoso…

Essas duas pequeninas descobertas aguçaram ainda mais meu interesse pelas artes culinárias. E a minha gula. O que alimentou (desculpe) a minha mente percuciente, sequiosa por novos e mais elaborados desafios. Até que um dia cheguei à glória da culinária mirim: a palha italiana. De colher, naturalmente.

Tem também o episódio do bolo de chocolate.

Mas esse eu conto depois.

Minha avó dizia que escrever de estômago vazio faz muito mal.

Ou seria o contrário?

sexta-feira, 24 de julho de 2009

ANACRONISMO – NOVO PROTESTO CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO


Daqui a alguns anos, meu filho vai olhar pra mim e perguntar: “Pai, por que você sempre desenha essas duas bolinhas em cima do “U” de pingüim?”


Não me pergunte por que estaria escrevendo pingüim para o meu filho daqui a alguns anos. Gosto de pingüins. Acho o bicho simpático e pronto. Vai que ele também me pergunta a mesma coisa… já está dada a resposta.

É. Se você chegou até aqui, já deve ter percebido que se trata de mais um protesto contra esse arbitrário acordo ortográfico.

Sim, uma voz clamando novamente no deserto.

Mas não posso me calar diante de tamanha injustiça, afinal de contas, passamos anos a fio queimando pestanas, para um bom domínio da língua (sem trocadilho), e resolvem mudar tudo, lançando-nos sem piedade à condição de semi alfabetizados ou, no mínimo, anacrônicos.

Uma ressalva, justiça seja feita: hífen eu nunca soube quando utilizar ou não. Continuo sem saber, mas agora tenho em quem colocar a culpa, afinal de contas mudaram tudo e nessa idade a gente não aprende mais nada.

Pois eu continuarei a escrever PINGÜIM com trema. Doa em quem doer. Assumo meu anacronismo, até de certo bom grado.

Meu avô era anacrônico.

Escrevia PHarmacia.

E eu achava lindo…

terça-feira, 21 de julho de 2009

DÚVIDA CRUEL


ELE - O Certo é CLÍtoris ou cliTÓris?

ELA - Meu querido, você descobrindo onde fica e sabendo utilizar, pode chamar do que quiser.

PINÓQUIO

Fosse hoje, Gepeto ficaria decepcionadíssimo ao perceber que seu boneco virou gente. Posso vê-lo, agora, os óculos na testa repleta de gotas de suor que ainda cairão, o rosto coberto com as mãos, não quer ver, e a pergunta: “onde foi que eu errei?!”

Fosse hoje, o menino Pinóquio teria não um grilo, que este de há muito não incomoda mais ninguém. Dar-lhe-ia a Fada Azul um sorumbático cupim por consciência, que quiçá lhe levantasse os olhos uma única vez, como a medir a empreitada; e lhe passasse o resto dos dias a roer por dentro, silente e impiedoso.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

DESAFIO


Sentava-se à frente daquela tela vazia e tentava imaginar-se ao pé de uma folha de papel em branco. Mas faltava alguma coisa. As teclas refletiam a luz do teto, todas aquelas ferramentas do editor de texto tão presentes, à mão, solícitas, mesmo, ousaria dizer. Mas sentia uma falta dolorida do ato visceral de empunhar uma caneta, como quem maneja uma espada, ou um punhal. E o momento arquetípico de destruição por que passaram todos os grandes escritores (os da Antiguidade, pelo menos)... reler o que acabou de escrever, esboçar uma careta de enfado, ou asco, tédio, nojo, frustração, sei lá, uma reação qualquer, humana, muito humana, e descarregar toda a sua raiva no ato de amassar com as duas mãos aquela folha que se fez portadora de seu infortúnio. Apertar os dedos com força, como a expurgar com os músculos das mãos e dos braços as idéias vãs, a vida própria que até mesmo as idéias inócuas parecem tomar, à completa revelia do escritor. Esmagar a vergonha do que jamais devera ser sequer pensado, que dizer escrito. E tomar nova folha virgem, nova em folha (trocadilhos...), simbolizando novo começo para um mesmo desafio. Ah, quisera todos entendessem o quão desconcertante uma folha de papel em branco pode ser... ao te analisar com a indiferença de algo que simboliza o vazio total, o vácuo, poder-se-ia dizer, se tal existe ou existisse. Um nada que te olha do alto, irônico e arrogante, como quem diz (ah, esses parênteses! Não existe mal nenhum em ser desafiado por “quem diz”; o pior desafio é aquele que se faz em silêncio. Mas fica a frase, que por ora não tenho folha de papel para amassar e recomeçar): “já que me vais macular, que mo faças com um mínimo de decência”, essas coisas que talvez a maioria das pessoas vá achar que é doideira (loucura seria uma palavra séria demais para isso. Aliás, já repararam que até nos reproches existe uma certa hierarquização?! Abramos aqui novo parêntese: a despeito de todas as neuroses e psicoses já catalogadas, e de todas as que ainda hão de vir, que a Ciência anda profícua em dar nome aos bois, mas existe sempre algo de sério em se chamar alguém de louco. Tachar de loucura o que alguém faz ou fez inspira um certo respeito, uma certa aura de temor, ao passo que a doideira, no mais das vezes, é vista com um certo desdém, como quem reprova uma atitude pueril e inadequada.). Mas ali não está a tal folha de papel a desafiar o escritor, só a tela em branco. O desafio persiste. E o papel venceu mais uma vez.

sábado, 18 de julho de 2009

sexta-feira, 17 de julho de 2009

EUSÉBIO, O SOMBRA


- Alô, Cida?! Aqui é Dirce, querida. Como vai? Por aqui tudo mais ou menos, querida. Estou te ligando pra ver se você ainda tem o número daquele detetive que você contratou no ano passado, pra seguir o Miranda. Como é mesmo o nome dele? Peraí que estou anotando: Eusébio, o Sombra?! Que horror! E você recomenda os serviços dele? É, você já deve estar imaginando que eu ando desconfiada, né? Pois é. Mas eu prefiro não falar sobre isso agora, querida. A gente se vê no clube na sexta-feira e eu te conto tudo pessoalmente. Um beijo, querida! Tenho que desligar que estão batendo à porta e a empregada está no play com o Afonsinho. Tchau, fofa!


Pelo olho mágico vê um homem de meia altura, rosto anguloso e barba por fazer, óculos raiban modelo aviador com cara de mais de 15 anos de uso, um chapéu panamá de feltro marrom desbotado na cabeça, gravata marrom com bolinhas brancas meio frouxa no colarinho. Pára, pisca os olhos e confere: ele está mesmo lá. E de sobretudo, apesar do calor. Abre a porta meio receosa.

- Pois não?!

- Bom dia! A senhora deve ser Dirce Monteiro Pimenta, brasileira, casada, esposa de Afonso Albernaz Pimenta.

- S-sim… e o senhor, quem é?

- Eusébio, o Sombra, detetive particular, um vosso criado, senhora. – tira os anacrônicos óculos escuros e faz um breve meneio com a cabeça.

- M-mas como?!

- Eu tenho meus métodos, madame. Gostaria de ver meu currículo? – e estende uma pasta que parece tão espessa quanto aquelas Bíblias de capa dura e lateral dourada que estão sempre abertas por aí.

- Não, não acho que seja necessário. Eu já colhi algumas referências sobre o senhor e me parecem suficientes. Mas como foi que o porteiro deixou que o senhor subisse sem ser anunciado?

- Não sou do tipo que se anuncia, madame. Coisas da profissão, a senhora entende… - e dá uma piscadela, levantando leve mas perceptivelmente o canto direito da boca. Os dentes são amarelados.

- O senhor está suando em bicas. Por que não tira o sobretudo? – e quase se arrependeu do comentário; sabe lá Deus o que aquele homem esconderia sob aquela indumentária.

Ele agradeceu, retirou o sobretudo, entrou, sentaram-se, enquanto ele comentava que subir 14 andares pelas escadas não fora nada divertido.

- Oh! Algum problema com o elevador ou isso é alguma técnica profissional de investigação?

- Claustrofobia, madame. Mas vamos ao que interessa. Suponho que esteja desconfiada que o senhor Afonso a esteja traindo e que gostaria que eu reunisse provas suficientes de sua conduta imoral para que a senhora possa depená-lo em um futuro processo de separação. Corrija-me se eu estiver equivocado.

- Uhum!

- Imagino que a senhora venha baseando sua desconfiança em algumas mudanças no comportamento de seu marido e é importante que me relate que mudanças seriam essas, pra melhor condução do nosso trabalho. – puxa um bloquinho surrado de um dos bolsos da calça, um cotoco de lápis e é todo ouvidos a Dirce.

- Na verdade, tenho notado algumas mudanças bastante sutis no Afonso…

- Hum! Essas são as piores!... Mas prossiga.

- Voltou a jogar tênis, tem falado em se matricular em uma academia e o que é pior: tenho achado que ele anda muito alegrinho ultimamente.

Ele não anota nada. Apenas assente com a cabeça e tenta disfarçar as furtivas olhadas para as belas pernas cruzadas dela.

- São sinais claros, madame. Mas vamos desvendar esse mistério em dois tempos. Alguma mudança no quesito cor e modelo de cuecas?

- Não. Ele sempre foi muito tradicional com o vestuário. Samba canção branca de algodão.

- Certo. É do tipo cuidadoso, preocupado em não deixar rastro. Talvez sejam necessários três tempos.

Combinaram os honorários e os detalhes da operação: a comunicação entre eles ficaria restrita ao mínimo imprescindível durante as investigações e nunca via telefone celular. Todos os telefones utilizados pelo traidor seriam grampeados, para gravar conversas comprometedoras. E sigilo absoluto com relação a todos os resultados e material capturado.

Detalhes acertados, parte nosso destemido defensor da família, da moral e dos bons costumes, em busca de sua presa. Trata-se de um idealista, que, naturalmente, trabalha pelo dinheiro, afinal de contas tem mulher e prole pra sustentar. Mas é certo que desempenha com prazer suas funções, pois acredita na família como instituição e na fidelidade conjugal como um dos pilares fundamentais da sociedade civilizada, cristão convicto e tradicionalista que é.

Passada uma semana, toca a campainha do apartamento de Dirce Monteiro Pimenta. A empregada está com o Afonsinho no play. Ela vem atender a porta de robe de chambre. Está se preparando para sair.

Lá está Eusébio, o Sombra, que parece ter passado a semana inteira sem aparecer em casa pra trocar de roupa. O suor empapa-lhe a fronte e o colarinho, a barba está mais por fazer que na primeira visita e, ao tirar os óculos escuros, Dirce nota olheiras profundas.

- Entre, entre, depressa! – num sussurro. – O prédio está infestado de câmeras.

- Com licença… - a voz dele é pesada, arrastada. O ar grave, pensativo.

- Madame, trago boas e más notícias e como é praxe, darei a má notícia primeiro.

Ela arregala os olhos, cobre a boca com as mãos, tenta dizer alguma coisa, mas ele a interrompe. É um profissional. Está acostumado a lidar com situações assim.

- O senhor Afonso Albernaz Pimenta mantém uma relação extraconjugal com uma mulher, com quem tem encontros amorosos com freqüência bastante regular. – abre um envelope pardo surrado (seria o mesmo do currículo?) e começa lhe passar as fotos em diversos ângulos do carro do marido traidor entrando em vários motéis em dias e horários diferentes daquela semana.


Quatro encontros em uma semana. Sabe-se lá como, ele entrega até mesmo uma foto tirada dentro do quarto de um dos motéis, de qualidade bastante prejudicada, em que um casal aparece copulando. – Esta foto está um pouco pobre em qualidade, mas eu posso assegurar que se trata do seu marido…

- Não precisa, seu Sombra! Eu reconheceria essa bunda branca e enorme até mesmo em foto de satélite. E essa mania de transar de meias o desgraçado não perde nem com a amante! O senhor fez um excelente trabalho e agora já tenho tudo de que preciso pra depenar aquele bastardo! Um minutinho só, que eu vou pegar minha bolsa e lhe fazer um cheque.

Entra pisando duro pelo corredor, some por alguns instantes e volta com os olhos vermelhos, o robe em desalinho e a bolsa na mão. Só então se lembra de perguntar:

- O senhor disse que tinha uma notícia boa pra me dar. Que tipo de notícia poderia ser boa, numa ocasião dessas?

Ele dá um sorriso amarelo, triste e pensativo.

- A senhora só vai me pagar a metade do valor combinado de meus honorários.

- Mas por quê?! O senhor fez um excelente trabalho. Rápido, discreto, eficiente, merece até uma bonificação por isso.

- Eu prefiro não entrar em detalhes sobre o motivo do abatimento, se a senhora me permitir. – sua voz é triste, quase um fiapo.

- Bom, vocês, detetives, são mesmo cheios de mistérios. Se o senhor prefere assim, aqui está o seu cheque.

Ele dobra o cheque sem olhar o valor, mete no bolso do sobretudo, agradece pela preferência e dirige-se lentamente à porta, que ele mesmo abre. Antes que ele saia, ela se lembra de uma última pergunta:

- Seu Sombra, eu já ia me esquecendo: e quem é a vagabunda?

Já com o pé direito fora do apartamento, a mão esquerda sobre a cara maçaneta dourada, ele se vira lentamente na direção dela, ergue os olhos do piso e responde em tom quase inaudível:

- A vagabunda… é a minha mulher.


E sai…

RINDO POR ESCRITO


Não estamos aqui para fazer coro aos inimigos da modernidade, que apregoam por aí que o PC, a internet e todos os celérrimos avanços tecnológicos dos últimos anos, minutos e segundos têm enfiado cada vez mais o indivíduo em sua casca. Não concordamos com isso e acreditamos mesmo que o contrário seja muito mais verdadeiro. Tampouco é nossa intenção defender uma tese de mestrado sobre o assunto ou convencer quem quer que seja.


Mas é engraçado notar as mudanças de comportamento que vêm se infiltrando aos poucos em nossa sociedade cada vez mais tecnológica que talvez passem despercebidas pelos mais jovens, que já nasceram digerindo bits e bytes e teriam grande dificuldade em entender que uma máquina de escrever não é um computador com monitor de papel. Mas para nós, os quase dinossauros, essas pequenas nuanças que se vão incorporando aos poucos ao dia-a-dia têm um sabor delicioso (e atemorizante, às vezes) de novidade.

Rir por escrito, por exemplo, é algo que seria inimaginável até bem pouco tempo. Mas que se tornou uma necessidade, com a proliferação e popularização de messengers, orkuts, icqs, smss e outras ferramentas de comunicação escrita (a propósito, duvidamos que alguém ouse dizer que as novas gerações estejam lendo cada vez menos. Agora, quanto ao que estão lendo, já é um tema que deixamos para especialistas em outras áreas. Nossa especialidade são as generalidades).
Simplesmente não dá para não rir por escrito, sob penas de parecermos insensíveis, mal humorados, ranzinzas ou indiferentes.
E não existe um padrão ou forma convencional. Cada um ri como quer.
Em nosso caso, preferimos o bom e velho rs, como presumível abreviação de riso. A quantidade de “rs” aumenta em proporção à graça do que se acaba de ler. Mas já tem gente que acha que rir dessa forma é antiquado. Imaginem só: nós aqui achando uma tremenda novidade rir por escrito e já tem gente achando nosso riso obsoleto.
HAHAHAHA é ótimo. Adoramos receber um desses. Ficamos a imaginar a outra pessoa tendo uma síncope do outro lado da linha, cabo, wireless ou o diabo, dobrando-se sobre o teclado e contorcendo-se em gargalhadas. E o melhor de tudo é imaginar que pode haver outras pessoas na sala vendo aquilo e não entendendo nada.
Acho kkk simpático, mas meio preguiçoso. Afinal de contas, basta premer uma tecla, uma única tecla, e deixar que ela preencha o espaço destinado ao riso desbragado. Não me convence.
HEHEHE, seja maiúsculo ou minúsculo não nos agrada muito. Soa debochado, aquele risinho que se dá com um olhar de malícia. Podemos estar enganados, e quase sempre estamos. Mas é a impressão que nos causa e não haveria porque deixar de mencioná-la.
Pelo mundo afora as formas variam conforme a língua. Alguns de nossos virtuais interlocutores de língua inglesa, por exemplo, riem “lol”, que é uma sigla pra “laugh out loud”. É, eles adoram uma sigla. E é sempre muito engraçado ver um hispanófono rindo “jajajaja” ou mesmo “jejeje”, lembrando, naturalmente, que o “j” tem som de um “r” aspirado na língua deles.
Mas em termos de complexidade e originalidade, nada se compara (em nossa opinião, que fique claro) a POKDOPASKDPOKASPOD. Não se assuste, mas tem gente que ri assim. É quase uma cadeia de cromossomos. Pode soar muito contagiante, mas alertamos para os perigos de se tentar fazer isso em casa sem um acompanhamento especializado.
Em suma, não era nada disso que tínhamos pra escrever, mas perdemo-nos em uma deliciosa digressão.
Deixe estar, que rir, da maneira que for, ainda é e sempre será o melhor remédio.
E fique o(a) caro(a) leitor(a) à vontade para mandar sua sugestão de riso por escrito.
Quem sabe não formamos um catálogo?
Rsrsrsrs

quinta-feira, 16 de julho de 2009

PRA ENTENDER O ZÔTO


Pra começo de conversa, o título acima está completamente equivocado. Não se entende o ZÔTO. Por mais que eu tente explicar, e talvez o faça por mais tempo que o necessário, se alguém assentir com a cabeça ao final de tal explicação, dizendo : “sim, agora eu entendi”, das duas uma – ou a pessoa estará mentindo, pra pôr um ponto final no assunto, pois não agüenta mais ouvir falar desse tal bicho que todo mundo sabe que existe mas que jamais foi visto por qualquer ser vivente; ou, no caso de a afirmativa ter sido de uma honestidade inquestionável e o interlocutor acreditar piamente que finalmente entendeu tudo sobre o ZÔTO, ela certamente estará enganada (não pense o leitor que passaram despercebidos os excessivos advérbios que acabo de utilizar – pia, final e certaMENTE. Foram deixados dessa forma propositalMENTE. Quando o assunto é ZÔTO a quantidade de MENTE nunca é excessiva.); você pode acreditar ou não na existência do ZÔTO. Você pode temer o ZÔTO ou não. Mas você jamais poderá entendê-lo.

Diremos que o ZÔTO é um monstro mitológico contemporâneo.

Dizemos contemporâneo em seu sentido lato. Desde que o mundo é mundo e haja mais de duas pessoas, aí está formado o território ideal de atuação dessa sórdida criatura. A Bíblia mesmo está repleta de relatos de situações em que o ZÔTO apronta das suas. Desde antes do dilúvio (não, Noé não tinha um casal de ZÔTO na arca), passando por Jó e culminando em Jesus Cristo. O ZÔTO não crucificou Jesus; mas que andou fazendo a cabeça de Pilatos, isso com certeza andou.

Mitológico porque até o momento a Ciência (dessas que se escreve com “C” maiúsculo) carece de provas da existência do mesmo. Não existem fotos, conversas gravadas, pegadas, nenhum vestígio. As incessantes investigações que se levam a cabo por todo o planeta resultam improdutivas, porque todas as vezes em que se acredita conseguir uma aproximação com o famigerado, depara-se com um interlocutor do interlocutor do ZÔTO. Nunca se conseguiu entrevistar alguém que houvesse estado face a face com o próprio.

Como os elementos materiais são pouquíssimos e de pouca confiabilidade, fiemo-nos em presunções, das quais pode discordar livremente o caro amigo:

Características morfológicas – impossível determinar ou mesmo especular sobre a forma de tal entidade, uma vez que não existem relatos confiáveis de alguém que a tenha visto. Porém acreditamos que o ZÔTO possua uma capacidade de mimetização considerável. Afinal de contas, se ele está sempre por aí, testemunhando tudo, e ninguém consegue ver, é sinal de que se disfarça muito bem.

Mas seguindo no terreno das suposições quanto à aparência do bicho, acreditamos que o mesmo possua olhos muito grandes, capazes de enxergar à distância até mesmo (e ousaríamos dizer principalmente) o que não acontece. Uma língua avantajada e extremamente venenosa, capaz de movimentar-se com extrema velocidade e discrição. E um nariz altamente especializado, capaz de farejar a vida alheia a quilômetros de distância.

Características fisiológicas – os resultados das pesquisas conduzidas até o momento permitem pressupor que o ZÔTO alimenta-se da vida alheia, sendo altamente capaz de manipulá-la. Sabe-se que ingere pelos grandes olhos tudo o que vê, acha que vê ou inventa que viu. É de uma voracidade inverossímil, sentindo-se na necessidade de aumentar consideravelmente toda a matéria que ingere, a fim de possibilitar sua digestão. Além de possuir grande autonomia: quando não possui do que se alimentar, cria do nada (e é justamente neste momento em que ele é mais pernicioso).

E que sua excreção dá-se pela boca, na forma de boatos, impropérios, maledicências, calúnias, difamações (nunca injúrias); tais excrementos são popularmente conhecidos como FOFOCAS e, uma vez processados pelos vetores de transmissão do ZÔTO, transformam-se em “APENAS COMENTÁRIOS”.

Por algum tempo chegou-se a crer que o ZÔTO babasse, uma vez que a expressão “BABADO FORTÍSSIMO” era utilizada com freqüência por quem quer que estivesse sob a mefítica influência da besta. Mas estudos aprofundados demonstraram que esta era apenas mais uma denominação eufemística para os excrementos produzidos pelo mesmo.

Quanto ao modus operandi, tem-se por certo que o ZÔTO prefere regiões demograficamente ocupadas (ecúmenos), tanto em zonas rurais quanto urbanas, sendo que sua atuação perde efeito gradualmente, à medida em que aumentam a população, o grau de civilização e o nível educacional (daquele que não se obtém em escola).

Entre suas vítimas menos prováveis estão aqueles indivíduos que têm mais o que fazer. Ele pode até tentar, mas geralmente sem êxito. A menos que o “ter mais o que fazer” seja apenas uma ferramenta retórica da vítima em potencial, o que o ZÔTO testa com meias insinuações. São iscas muito bem elaboradas que podem colocar em risco os detentores de menos firmeza. Cuidado!


E sabe-se também que ele nunca ataca frontalmente as suas vítimas. Espera que elas se afastem e dá o bote certeiro. Você pode estar frente a frente com ele neste momento. E não saberá identificá-lo em seu impecável disfarce de amigo, excelente ouvinte, sorriso angelical e sempre munido de seu artifício preferido: A MELHOR DAS INTENÇÕES.

As considerações acerca do assunto são demasiado extensas. Tratamos aqui de resumir algumas das características que consideramos essenciais, como forma de alertar o prezado leitor para os riscos de se tornar uma vítima dessa aberração e por aqui nos despedimos, para que não se torne enfadonho nosso discurso.

Apenas uma pergunta, para que permaneça vivo o assunto: Entendeu, agora?!

É, não dá mesmo pra entender o ZÔTO.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

TOP SECRET


- Disque Pizza Mamma Mia, boa noite! Qual é o seu pedido?
- De onde fala?! – uma voz de homem muito alarmado do outro lado da linha.
- Disque Pizza Mamma Mia, senhor. A massa mais fina e crocante e os melhores recheios da cidade…
- Céus! Este número deveria ser do Ministério de Relações Exteriores. Mas não tenho tempo… vai ter que ser com você, mesmo! Preste bastante atenção! – e uma breve pausa.
- ?!?!
- Estão atrás de mim e com certeza esta ligação está sendo gravada. Você precisa ligar imediatamente para o Serviço Secreto do Ministério das Relações Exteriores, está me ententendo?
- Não… eu…
- Não importa. Apenas faça o que estou dizendo. Mande transferir para o Galo Cego. É fácil reconhecer: ele é meio fanhoso e gagueja um pouco ao telefone. Diga que é da parte do Calango Seco.
- Espera aí… isso é algum trote?!
- Cale-se e escute! Estão atrás de mim e isso é um assunto de segurança mundial. Você vai repetir exatamente o que estou lhe dizendo: desvendada operação Dragão de Comodo. Carregamento de neutrílio rastreado, seguindo em direção à Baldácia esta noite, por um agente infiltrado em um vôo comercial. É imperativo que interceptemos o agente e recuperemos a carga. É preciso colocar os rapazes em alerta máximo!
- Meu senhor, o senhor andou bebendo?
- Meu rapaz, talvez você ainda não tenha compreendido a gravidade da situação. Não posso explicar, para não envolvê-lo ainda mais. Mesmo porque não temos tempo pra isso. Mas você tem que prometer que vai seguir as minhas instruções à risca. Estamos na iminência de um grande ataque terrorista da Al… Céus!
- O que foi?!
- Estão arrombando a porta! Tenho que desligar…


Do outro lado da linha um estampido parecido com um tiro de pistola com silenciador (pra alguma coisa um dia serviriam todos aqueles filmes de espionagem, afinal), e o som do telefone sendo desligado com violência.

Sinésio parou por um instante. Recapitulou as informações, os nomes cifrados. Imaginou-se ligando para o Ministério àquela hora da noite e sendo atendido por um porteiro sonolento, que lhe mandaria ir passar um trote na vovozinha. Ou não. Aquele feliz ou infeliz golpe do acaso podia ser, enfim, seu passaporte para uma vida muito mais glamorosa e excitante que o bico de atendente de disque pizza, que era pra ser uma coisa provisória e já perdurava por quase dois anos.

Já podia imaginar as manchetes de jornal, em que aparecia sendo cumprimentado pelo presidente, em pessoa, sendo escoltados ambos por aqueles brutamontes de ternos escuros, fone no ouvido e óculos raiban.

Talvez Hollywood se interessasse pela história. E colocasse o Brad Pitt pra representá-lo. Não, melhor seria o George Clooney. Combinava mais com o seu biótipo e o seu ar maduro durão.

Entre um delicioso devaneio e outro, toca novamente o telefone.

Sinésio atende de supetão:

- Calango cego, o que aconteceu?!
- Por favor, eu queria uma família, meia aliche, meia calabresa. O endereço é rua Marechal Cidônio, 43, apartamento 302. Troco pra 50, por favor.
- Oh, sim, senhora! Alguma coisa pra beber? Sobremesa?

De volta à realidade, o telefone não parou mais de tocar. Entre calzones e pizzas de todos os sabores e freqüentes olhadelas do gerente, que parecia desconfiado que o nosso quase herói andava se distraindo do serviço, aquela talvez tenha sido a melhor noite da Mamma Mia nos últimos dois anos.

Fim da noite e do expediente, já a caminho de casa foi que Sinésio lembrou-se da inusitada conversa cifrada do tal Galo de Comodo. Ou como quer que se chamasse.

Esquecera-se completamente das instruções recebidas. Nada de ligar pra Ministério nenhum,nem sequer imaginava onde ficava a tal Batráquia. Olhou para os lados, para trás, para certificar-se de que não estava sendo seguido. Nada. Nem uma alma viva na rua àquela hora da noite.

Rumou pra casa convicto de que fora vítima de um trote de muito mal gosto. Que alguém deveria estar naquele momento divertindo-se às custas de outros atendentes noturnos e despachantes de rádio-táxi, aproveitando-se da onda de caça às bruxas que se instalara no cenário mundial com os últimos ataques terroristas.

Mas, por via das dúvidas, preferiu não assistir ao noticiário naquela semana.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

METAMORFOSES


Depois de uma espera muito mais longa do que esperava (que essas coisas de esperar são sempre mais longas do que esperamos), na apertada e quente antessala do consultório, finalmente a recepcionista lhe diz as palavras mágicas:

- O senhor já pode entrar…

“Já?!”, ele quis pensar, mas deixou pra lá. Melhor pensar “finalmente”.

A psicóloga lhe esperava à porta. Estendeu-lhe a mão. Disse boa noite. Uma mulher na casa dos quarenta anos, um sorriso quase formal no rosto, aqueles óculos de aros metálicos fitando-o com ar de quem deseja adivinhar o que se passa por dentro de sua atribulada cabecinha e encontrar uma solução simples e monossilábica para todos os seus problemas. Bonita, mas não muito. Os cabelos presos no que deveria ter sido um coque, no início do expediente, e que agora, dependendo do ângulo em que se os olhava, pareciam ora soltos, ora atados num displicente rabo de cavalo.

Cumprimentou-a tentando fingir naturalidade, olhando por cima dos ombros dela, tentando tomar pé do ambiente. Entraram.

O consultório era bem diferente do que fantasiara. Nada de divã num canto, espremido entre prateleiras entulhadas de livros velhos e bolorentos. Nada de luminária pendendo do teto. O que via era uma sala bem iluminada, com uma mesa de trabalho sobre a qual pousava um laptop com cara de bastante usado, quadros nas paredes. E dois sofás, um de dois e um de três lugares, com um estofamento azul alguma coisa (ele não chegava a ser monocromático, mas com certeza muito menos cromático que qualquer mulher – era azul e pronto o sofá. E parecia muito confortável).

Sentaram-se, ela no de dois lugares. Ele de frente pra ela, sem saber direito onde pousava as mãos e os olhos. Ela puxou a conversa.

- E então?! – pausa – O que o trouxe até aqui?

Ele engasga, tem vontade de fugir, pigarreia, mas lembra-se do valor da consulta e começa a falar sobre os descaminhos todos que já percorrera, da busca incessante por algo que não sabe nem o que é, das constantes mudanças de direção, seja nos relacionamentos afetivos, seja no campo profissional. Em todo esse tempo só não mudara de pai e mãe. E a frase que ele ensaiara durante toda a semana, desde que finalmente conseguira agendar aquela consulta:

- Parecia que a trilha sonora da minha vida era aquela música do Raul Seixas: Metamorfose Ambulante. Pelo menos é como eu me sentia.

Ela escuta pacientemente, sem interromper. Não anota nada. Nem porta papel e lápis. Apenas ouve.

- Sem dúvida alguma estamos fazendo muitos progressos para uma primeira consulta.

Ele não entendeu, mas também não quis perguntar. Afinal de contas, era uma boa notícia.

- Mas precisamos atacar um problema de cada vez.

- Sim, e por onde começamos? – riso amarelo, ansioso por sair dali e fumar logo dois cigarros.

- Que tal se nós focássemos inicialmente nessa sua insatisfação constante?

- A senhora…

- Você, por favor!

- OK! Você acha que eu sofro disso?

- Bom, considerando-se as constantes mudanças de direção em sua vida, tem-se muito claramente um padrão de insatisfação generalizada, revelando problemas de ordem existencial.

- Sim, mas nada disso me incomoda mais.

- Mas você não me disse que escolheu Metamorfose Ambulante como trilha sonora de sua vida?

- Sim, eu disse que essa ERA a trilha…

- E não é mais?!

- Não. Mudei…

segunda-feira, 6 de julho de 2009

IMITANDO A ARTE

Ele não podia vê-la quieta diante do computador que disparava logo uma saraivada de perguntas. Passava o dia inteiro quieto, entretido diante da TV, sem puxar assunto. Novela, noticiário, comercial, não importava, desde que ela estivesse realizando os afazeres domésticos.

Mas era só ela sentar-se diante daquele teclado que a sua imbecil curiosidade parecia ressuscitar:

- O que você está fazendo?

- Escrevendo para o meu blog.

- De novo?

E ela suspirava. Eram sempre as mesmas perguntas todos os dias. Sequer alterava a ordem.

Ela chegou a achar que ele não ouvia as respostas que ela dava, mas desfez essa impressão no dia em que resolveu, lá pela décima terceira, dar uma resposta diferente da que dera nos dias anteriores. Foi uma confusão dos diabos, que acabou remetendo-o novamente à primeira pergunta e a todas as sucessivas. Aquela tática definitivamente não funcionara. Mais um suspiro.

Até que um dia ele surgiu com uma pergunta nova:

- E por que ficção? Tanta coisa acontecendo no mundo real, e você aí perdendo seu tempo com bobagens. Por que não experimenta escrever sobre algo que existe?

- Sobre o quê, por exemplo?!

- Sobre nós, por exemplo…

- Não acho que seja uma boa idéia.

- Por quê?

- Ninguém acreditaria…

E mais um suspiro.

ENTREVISTA COM O CANIBAL


Ao ser perguntado se nutria (ops) alguma preferência especial por determinado tipo de ser humano, o canibal responde com muita propriedade, como quem dá grande importância ao assunto:


- Oh, sim, naturalmente! Dou preferência a intelectuais. É bem verdade que andam bastante escassos. Não se encontram aos milhares por aí. Mas procuro pautar minha dieta em indivíduos no mínimo graduados. Pósgraduados sempre que possível. E lá uma vez ou outra um doutor, que a vida não anda lá pra extravagâncias todos os dias.

- Doutor?...

- Doutor com título de doutorado, é importante frisar.

Intrigado, o repórter questiona o porquê dessa preferência tão exigente e inusitada.

- Ora, meu jovem, você nunca ouviu dizer que somos o que comemos?! A propósito, você é jornalista formado?

O PREGUIÇOSO

O preguiçoso pergunta, em tom de quase desespero:
- O que foi mesmo que o senhor disse?!
- Eu disse: ‘MÃOS AO ALTO’, isto é um assalto!
- Ufa! Que alívio!
- ?!?!
- Pensei ter ouvido “Mãos à obra”…

quinta-feira, 2 de julho de 2009

CHAPEUZINHO V. MAU - UM DIA QUALQUER


AVISO IMPORTANTE : se você ainda não leu o post anterior, sugerimos veementemente que o faça antes de prosseguir. Não pela ordem do escritor, mas pela ordem dos escritos (por aqui a gente lê de cabeça pra baixo, ri por escrito. Seja bem vindo ao século XXI).


Dando continuidade à discussão sobre a possível miopia ou sonseira de Chapeuzinho Vermelho, participamos de um dia como outro qualquer na vida do casal Chapeuzinho e Lobo Mau, que ora relatamos, no intuito de dirimir possíveis dúvidas. Afinal de contas, nada como uma incursão na vida cotidiana de um casal para se tecer um diagnóstico preciso sobre as mazelas vigentes.

A residência da família Mau é simples, porém confortável. Localizada num bairro residencial afastado da cidade, a meio caminho de Mundo Real e Conto de Fadas, o lugar é aprazível, com boa vizinhança classe média média (isso ainda existe por lá) e qualidade de vida razoável.

O Sr. Lobo Mau, que trabalha para uma corretora de seguros que acaba de ser vendida a uma multinacional que acaba de falir, dirige todos os dias até o seu escritório no centro da cidade, retornando sempre por volta das 18 horas.

Naquele dia ele chegou meio desanimado, pelo trânsito, pelas contas que se avolumam, pelas dificuldades na transição da direção da empresa, metas, etc, etc, etc. Estaciona seu carro ao lado da casa, ruma até a porta dos fundos com ar cansado, gravata frouxa no colarinho, paletó no braço esquerdo, a velha pastinha preta na mão direita.

Foi entrando em silêncio, aos poucos inteirando-se da balbúrdia doméstica: a TV ligada com o volume na maior altura sem ninguém assistindo, a velha máquina de lavar a todo vapor, fazendo tremer o piso, Chapeuzinho pendurada ao telefone com sabe-se lá quem.

- Querida, cheguei!

- Oi, querido! Chegou cedo hoje. Que bom! Um minutinho que eu já estou terminando aqui e tenho duas ou três coisinhas urgentes pra falar com você.

Ele se deixa cair na poltrona da sala de estar. Ela sempre está “terminando aqui”, ele já sabe bem o tempo que isso leva. E sempre tem “duas ou três coisinhas” pra falar. Ele também já sabe muito bem o tempo que isso leva.

Ela chega esbaforida, esbarrando nos móveis, falando muito, gesticulando ainda mais. A lâmpada do corredor que queimou, a moça do cartão de crédito ligou de novo pedindo uma previsão de pagamento, o plano de saúde subiu, afinal de contas estamos ficando velhos, a professora de balé da Marina mandou um bilhete reclamando dos atrasos freqüentes, isso, aquilo, aquilo outro e esse maldito cachorro, que eu já te pedi mais de mil vezes pra prender lá fora!

- Cachorro?!

- É, cachorro, sim senhor! Quantas vezes eu já te pedi pra manter esse bicho acorrentado em sua casinha? Hoje ele passou o dia inteiro perambulando pela casa, sujando tudo, ganindo como um doido e se enroscando em minhas pernas. Olha aí, lá vem ele de novo!

- Mas querida, esse aí é o Júnior!

- Hã?!

E segue a controvérsia…

CHAPEUZINHO V. MAU

Por amor à graça da explicação, a despeito da graça muito mais pujante de tudo o que não (ainda) tem explicação, duas mal traçadas linhas para que não se perca o amigo leitor nesse título: caso não tenhais sido convidado, perdeste um acontecimento digno de contos de fadas – o enlace matrimonial entre a Chapeuzinho e o Lobo Mau (a rima é ridícula e não intencional – ups! – de novo – foi mal), sendo este o motivo pelo qual aquela passa a assinar agora Chapeuzinho (que é nome de registro e batismo, tem papel pra confirmar) V. Mau. Mas entraremos neste assunto com mais delongas.

O começo dessa história todo mundo já conhece. De ouvir falar e contar. Ocorre que conhece errado. Nossa astuta equipe de reportagem, sempre nas entrelinhas das manchetes, revela detalhes surpreendentes, que reviravolteiam (ficou feio isso) por completo os anais dos contos de fadas universais.

Existem controvérsias, até hoje, entre as conclusões a que chegaram nossos repórteres, que perduram mesmo após fatigantes consultas a abalizados especialistas no assunto: psiquiatras e oftalmologistas.

Tem-se por certo que a então senhorita Chapeuzinho não era militante de nenhum Partido dos Trabalhadores, a despeito da coloração de sua vestimenta. É também notório tratar-se de uma neta extremamente relapsa, visto que qualquer ser humano que visitasse a avó com a mínima freqüência que fosse, jamais correria o risco de confundir o Lobo Mau com a inocente senhora que ali deveria jazer enferma.

É fato também, a despeito do que reza a tradição, que o Lobo Mau comeu a Chapeuzinho (jura de pé junto que nunca tocou na vovozinha, o que esta confirma com um suspiro), mas casou.

A grande controvérsia está em saber se a hoje senhora Lobo Mau era (e continua sendo) míope ou sonsa.

A banca de psiquiatras consultados por nossa produção é peremptória ao afirmar que a paciente em questão é míope, pese-se em favor deles o fato de que, mesmo levando-se em consideração a baixa freqüência de visitas à progenitora, Chapeuzinho era capaz de distinguir o tamanho dos traços faciais da pessoa que se apresentava ao leito. Prova disso está nos anais da história, pra quem quiser ler: “olhos tão grandes”, “nariz tão grande”, e assim por diante.

Já o time de renomados oftalmologistas consultados é unânime em afirmar que o problema de nossa protagonista é um sonseira aguda crônica, uma vez que ela era capaz de perceber com clareza que alguém ali se encontrava deitado. No entanto, como forma de confirmar se se tratava mesmo de sua vovozinha ou de um impostor (o que, segundo livre interpretação desses especialistas, chegou a ser cogitado por Chapeuzinho), propõe uma série de questionamentos estapafúrdios, com a finalidade de confirmar a identidade do interlocutor.

Nós dissemos que trataríamos do assunto com mais delongas.

O fato é que, apesar de a controvérsia seguir ocupando um lugar de destaque na mídia, Lobo Mau e Chapeuzinho acabaram se casando, depois de um tumultuado namoro que deu o que falar.

Mas isso já é outra história.