sexta-feira, 25 de março de 2011

LA MUSE DE JOUR


É a ti que escrevo, Euterpe, Calíope, Polímnia.

Olhos de labareda.

Menina levada não pode ser musa de uma arte só.


Destarte,

Meus versos pirografo em um estandarte

Àquela que nunca veio

E, por conseguinte, nunca parte.


Infame fim destes meus versos:

Não dizer-te, com letra alguma,

Do desejo que sequer a mim revelo

De saborear-te,

Viajar contigo

A Marte.
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quarta-feira, 23 de março de 2011

VOCÊ ACHOU ISSO ENGRAÇADO?!


Volta e meia a publicidade brasileira nos presenteia com algumas pérolas de tirar o fôlego.

Chego a dizer, a quem quiser ouvir, que, na grande maioria dos casos, é na hora do comercial que paro na frente da TV.

E recentemente indignou-me um dos vídeos da nova campanha do Bombril.

Pra começar, Marisa Orth brandindo um jornal, ameaçando “jornalada na fuça” de quem quer que seja é de um mau gosto terrível. Incita à violência doméstica, que tanto se vem tentando combater neste País e representa uma verdadeira catástrofe, desenvolvendo-se silenciosa no seio do lar, que deveria ser porto seguro.

Tá de bom tamanho, a “jornalada na fuça?”.

Parece papo de homem recalcado, sentindo-se agredido por uma propaganda politicamente incorreta que incita à “machofobia”?

Ledo engano…

A verdadeira agressão demonstrada de forma pouco sutil no vídeo é justamente à mulher e à sua trajetória de luta e conquistas.

Será que o nosso ideal de mulher evoluída é um ser que se veste como homem, coça um saco proverbial, cospe no chão, enche a cara e fala palavrão?

Ou será que a mensagem subliminar do comercial tenta lhe dizer que a mulher, pra evoluir, precisa encarnar justamente aquilo de que o homem precisa se livrar, pra evoluir?

A frase ficou confusa, mas a pergunta é a seguinte: a mulher só evolui se virar homem?

Uma caricatura de mulher moderna e bem sucedida, cuja maior preocupação na vida continua sendo, vejam vocês, a pia cheia de louça.

Foi pra isso, enfim, que se queimaram soutiens em praça pública?!

Eu repudio…

E vamos voltar ao assunto…

terça-feira, 22 de março de 2011

DEFINITIVO


Está resolvido!
A partir de hoje, deixo de acreditar em coisas definitivas.
Já acreditei no amor, quando chegou com cara de sossego, ar de quem veio pra ficar; no máximo uma tampa do sanitário levantada pra perturbar a paz.
Acreditei quando chegou como um tufão, arrancando pelas raízes todas as árvores do lugar. Sabe lá Deus onde terão ido parar. Melhor nem cogitar.
Na paixão volátil de uma noite quente. Suor copioso, promessas fáceis. Sexo, drogas e Chico Buarque. E a banda passou.
No jantar à mesa, casa varrida, pudim de leite condensado, novela das oito (eu ainda sou desse tempo). E no vento a cantar doído pelas frestas das janelas.
Até naqueles olhos de fera enjaulada, verborragia maldita e infrene. O sangue nos olhos, o álcool na mente. Bicho demônio fingindo de gente. Eu acreditei…
Acreditei no sorriso que você não me deu, brejeiro, emoldurado por cabelos muito negros e olhos que cri percucientes, como doce provocação. Não era eu o fotógrafo do parque. Quiçá, quando muito, o moleque que passou correndo atrás de um pombo retardatário, viu de relance aquele semblante e se encantou.
Acreditei que ia chover e esqueci o guarda-chuva no banco da estação.
Acreditei que vinha o trem e, depois de muito esperar, resolvi vir caminhando. Longe dos trilhos, é certo. Vai que esse trem ainda passa. Vai que eles me levem a algum lugar.
Tudo isso é passado, acredito…
Doravante, interrogações e reticências.
É definitivo!
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

NOTÍCIA DE VIDA


Notícias de morte, temo-las aos milhares. Algumas até, lamentavelmente, com sofisticados requintes de crueldade.
Deixe estar, que há bem pouco tempo atrás, apupávamos como macacos no Circo Máximo, o Vasco e Flamengo no Maracanã da Roma Antiga, quando os leões se lançavam famintos sobre os cristãos. Era golaço…
E hoje, causam-nos engulhos determinadas cenas de violência exibidas na TV.
Há que se reconhecer um sinal de evolução, quando os há. Alvíssaras!!!
Notícia de vida, que é bom mesmo, é coisa rara.
Volta e meia se noticia o resgate de um sobrevivente. Mas isso se dá com mais freqüência em tempos de grandes catástrofe.
Os sobreviventes das pequenas catástrofes pessoais cotidianas não vendem. Mas silenciosamente seguem vencendo seus tropeços, levantando e sacudindo a poeira. Sem estatística do IBGE, sem Fátima ou Datena.
Anônimos.
Silenciosos.
Mas estão lá.
Uma história de Vida, graças à Razão:
Vida se instalou ali.
Viu que era quentinho, aconchegante e resolveu ficar. Estava tudo prontinho.
A mãe da Vida nem sabia disso; não estava esperando. Nem o pai.
Vida simplesmente aconteceu. Mas, como tudo o que acontece tem uma razão, ou Razão, como queiram. E como Vida é parte de tudo, há de haver uma Razão por trás do acontecer.
A mãe andou falando em pedir Vida pra desocupar por um tempinho. “Tá muito cedo.” Sei lá, dar uma volta, voltar um pouco mais tarde.
Tirou opinião aqui, ali. Uns contra, uns a favor, a turma do “muito pelo contrário”.
A mulher de branco chegou. Tá com uma cara séria e uma coisa na mão.
Vida sabe que a mãe está deitada e ouve seu coração bater muito forte, parecendo pular no peito.
Vida está com medo. Prende a respiração. A mulher se aproxima e toca a mãe. Ela estremece.
Muito medo.
De repente um som invade a sala.
Vida reconhece o som de seu próprio coração ecoando nas paredes do consultório.
A mãe de Vida chora muito. E sorri. Nunca ouviu nada tão bonito. E a mulher de branco começa a falar um monte de coisas sobre Vida e a mãe se debulha em lágrimas e faz: ownnnnn…
Vida pode enfim respirar.
A mãe de Vida respira. Suspira.
A Razão inspira e a Humanidade exulta.
Vida venceu!!!
A propósito, a boneca da foto se chama Feijãozinho. E é a cara da mãe.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

ERRATA


Por motivos técnicos, fui obrigado a substituir a imagem da postagem anterior.
Mas como eu não gosto de fazer nada obrigado, mantive-a.
Cliquem nela e vai aparecer justamente o que eu havia planejado colocar. A intenção era ótima... e foi colhida num site do governo. Portanto, nos pertence. Usufruamos!
A foto que ora ilustra a presente ERRATA não é uma apelação, através da exploração do nu infantil... é apenas uma criança fofa cujo cofrinho, por acaso, apareceu na foto.
Por favor, lembrem-se de retornar ao texto após clicarem na foto do bebê (do post anterior).
Não será uma tarefa fácil.
Mas espero que compensadora...

TEMPOS MODERNOS - FOFOCA ELETRÔNICA

Que está tudo mudando, e rápido demais, me parece que já tem bastante gente percebendo.
Dia desses me peguei discutindo com uma pessoa que me dizia que não gostava muito de ler; que escrever, então, nem pensar…
Mas me disse isso tudo por escrito.
Mas não era nada disso que eu queria dizer.
O fato é que até a maneira de fofocar está mudando.
Batalhões de candinhas eletrônicas, de todos os sexos, idades, raças (humana, humana, humana, humana, etc), credos (e cruzes), lendo e escrevendo como nunca.
Os assuntos, é claro, são os mais variados. Sexo, vida alheia e muitos outros.
E foi de uma das muitas modalidades de se comunicar que a vida atual oferece (em brasileiro, de um chat desses da vida), que surgiu a conversa abaixo, entre duas “amigas”:
FULANA diz: ai, amiga… cheguei à conclusão de que homem bonito é igual a filho…
SICRANA diz: kkkkkk… tem a ver com a história do peido?
FULANA diz: ????
SICRANA diz: é uma piada infame… mas tem um fundo de verdade… outra hora eu te conto…
FULANA diz: raciocina comigo… filho é bom o da amiga…
SICRANA diz: hum
FULANA diz: vc pega no colinho, faz bilubilu, dá comidinha, leva pra passear, pra fazer inveja nas amigas… quando começa a querer arrotar e fazer caquinha, é só devolver pra dona…
SICRANA diz: kkkkkk
Fecha aspas…
Agora, você pode até discordar de mim em muitas coisas…
Mas tava lendo conversa dos outros até agora…

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

VEM MAIS EU - uma homenagem a MARATAÍZES

Vem mais eu, vem mais eu
Simbora fugir daqui
Vem mais eu, vem mais eu
Viver de amor e abacaxi
Vem mais eu, vem mais eu
Fincar chão, criar raízes
Vem mais eu, vem mais
Morar neste lugar que chama Marataízes

Eu vim lá da cidade onde faz todo dia um calor da peste
Me sentei na areia e fiquei abraçado ao vento nordeste
Quando o sol se escondeu e a lua pôs a cara pra passear
Esqueci da minha vida, esqueci que tinha que trabalhar

Vem mais eu...

E na beira das águas ouvi uma voz me chamando assim
Vem, meu filho, mergulha, entrega seus problemas pra mim
Até hoje não sei se era Nossa Senhora ou Iemanjá
Eu só sei que deixei todas dores da vida no fundo do mar

Vem mais eu...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

E EU?!

A lua varia.
Às vezes passa um risco, apenas. Como um caquinho da unha do mindinho, costuma cruzar de dia o céu, confundindo-se com as nuvens, quando nuvens há. Fingindo deixar-se ofuscar pelo brilho que já lá está. Visível mesmo só em noite muito clara, aonde ainda não chegaram as potentes lâmpadas de iodeto metálico.
É a lua fada.
Tênue, melíflua, vaporosa.
É dessas coisas que a gente sabe que existe: está lá, em algum lugar. Mas difícil de ver.
Às vezes é toda esplendor e brilho, esbanjando forma e espalhando idéias: vai me dizer que você nunca pensou “bobiça” ao ver aquela lua enorme prateada pendendo do céu, passeando de um lado a outro, toda vaidosa e cheia de si?!
É a lua loba.
Abundante, sensual e plena. O apogeu.
O mais são os caminhos que ela percorre sempre, numa e noutra direção. Pra quem achava que bastavam duas fases: cheia e vazia, está até de bom tamanho.
Em suma, é fêmea e é mulher, toda trejeitosa, sempre em movimento.
O sol, por ter mais de brilho, pode se dar ao luxo de ser mais discreto em seus movimentos.
Rompe o horizonte com a força do grito de um nascituro, tingindo o mundo de ouro e aquecendo bons e maus com seus braços calorosos e aconchegantes.
Parece abraço de mãe, mas pode queimar.
Será homem ou mulher?
O mar, não.
O mar está sempre lá. Noite ou dia, dia santo ou de campeonato, sorria você ou chore.
Às vezes sereno e plácido, noutras um vulcão salgado, te abriga ou te consome, destino, caminho ou postal.
Mas está sempre lá.
E eu?!
Estarei sempre onde?!
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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

AUTOAJUDA RICARDIANA II



DICA DO DIA

QUE TUDO O QUE FIZERES COM A BOCA SEJA BOM E PRAZEROSO

Obs : o dia tem 24 horas

foto gentilmente cedida por Mariana Pandini
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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

PETER





Antes que se afastasse demais do chão, ainda tive tempo de olhar em seus olhos.


Refletiam o mesmo brilho de sempre.


Aprendi com o Jornalismo que o mesmo de sempre não é factual… não é notícia… mas já esqueci.


Era o mesmo brilho de sempre, e isso pra mim é notícia, seja amanhã ou daqui a 40 anos (é o tempo que se costuma levar, vagando pelo deserto, para se chegar à Terra Prometida).


Não sei se ele ouviu. Tem certas coisas que deixamos para depois do último momento. Talvez na esperança, mesmo, de que não sejam ouvidas.


Mas balbuciei entre lágrimas escondidas no coração:


- Quando crescer, quero ser igual a você!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

PRA NÃO DIZER QUE SÓ FALEI DE FLORES

PRA NÃO DIZER QUE SÓ FALEI DE FLORES
(CAMINHANDO E PLANTANDO)
falei de cinzas,
das chamas não precisei...
falei de quedas,
recomeços,
andares e retropeços.
só esqueci de te contar que eu sei voar.
mas essas coisas a gente não sai por aí falando.
bate asas e vai...
falei também de sóis,
de horizontes e de paz.
pena que não ouviu:
o chão te interessa mais...
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

AUTOAJUDA RICARDIANA


AUTOAJUDA RICARDIANA - PRIMEIRO FASCÍCULO (e, se for só este, será ainda, simultaneamente, o único e o último)


QUEM VOCÊ GOSTARIA DE ENCONTRAR NO ASILO?


Não tente entender errado a pergunta acima... Eu explico:


Você não está indo visitar ninguém.


Chegou a sua vez, seja daqui a 50, 60 anos, ninguém saberá. O fato é que, do jeito que Ciência anda, em pouco tempo estaremos entrando na meia idade aos 80. E em atividade sexual (eu ia dizer sexualmente ativos, mas poderia causar polêmica)!


Assim como chega uma hora em que você pára de se perguntar (ou, pelo menos, deveria): "QUEM EU LEVARIA PARA UMA ILHA DESERTA?"


E pára para se perguntar: "QUEM EU TRARIA DE VOLTA DA ILHA DESERTA?"


EROS está saciado, mas nem por isso a festa precisa terminar.


É a hora do ÁGAPE.


A boa notícia é que o barco é grande, cabe muita gente. Não tem mais aquela história de caber uma pessoa só. (Por favor, notem que eu não estou sugerindo uma orgia marítima. EROS ficou na ilha. Vai ter sempre alguém por lá, mesmo.)


E não precisa pressa, porque ele não está pra zarpar. Pode construir sua lista com calma, diariamente. Vasculhe o passado com o carinho de quem se procura em velhas fotos. E a amores antigos. Encontre aquela voz, aquele sorriso, aquele abraço, aquele colo, aquele espôrro, as piadas de D. Pedro... ou o autor daquele gol do seu time...


Busque aquele carinho com cheiro de lavanda, que é como devem cheirar as coisas guardadas com o devido cuidado. Aquele abraço quentinho, ou aquele abaixar tímido dos primeiros olhares.


Sim, porque a vida é feita desses momentos, também.


Mas tem gente que prefere escolher as dores...


E não reparem no título, por favor.


ASILO vai ser o nome da nossa colônia de férias.


Se Deus quiser!!!


"Uno vuelve siempre a los viejos sítios donde amó la vida."



AVIS TARA

JÁ REPAROU COMO TEM CANÇÃO COM BEIJA-FLOR?
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

DISTÂNCIA

De longe
Somos novidades sempre frescas
Com uma generosa pitada de saudade

Como o sol que beija a folha a cada dia
E lhe faz lembrar-se viva.
Luz gostosa
Que, de perto, queimaria


Noite é sempre luz de quem caminha


Luzires,


Ires e vires,


Inda que solitário


Refletem-se na luz dos postes.


Nosso único temor mais que certo:


O arrebol.


Os bichos do dia seguem tranqüilos,


Sem terem que brilhar.


Nossas antenas,


Captando vibrações da lua sempre cheia de nossos sonhos.


Lobisomens passeiam pela madrugada,


Contra os faróis dos carros.


Lobisomens,


Somos nós, poetas,


Bêbados de sentimentos,


Superumanos,


Lobisumanos.

04/01/1993

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

DO LADO DE LÁ




Abriu os olhos como os fechara: lenta e calmamente.


Por mais que estivesse sem os óculos, percebeu que se encontrava num local totalmente diferente daquele onde se deitara na noite anterior. Aliás, pela primeira vez em muitos anos sentia não precisar dos óculos, que invariavelmente eram a primeira coisa que procurava ao despertar, mas isso só veio a perceber mais tarde. Chamavam-lhe muito mais a atenção a brancura de tudo naquele ambiente onde abrira os olhos, das paredes ao piso, da mobília simples à porta, que pareciam refletir uma luz calma e cálida, como a paz que sentia no regaço de Pilar (onde estaria ela?!).


Enquanto cismava, e quando se cisma não se sabe quanto tempo passa, a porta, branca, como todo o mais, abriu-se lentamente, não sem antes receber dois leves toques com o nós de dedos muito suaves, dando passagem a um jovem distinto, que juventude é o que mais se encontra por aí, quando se passa dos oitenta; já distinção… o jovem cumprimenta-o com um sorriso sinceramente cordial no rosto, pergunta-lhe como se sente e informa que o esperam em outra sala para uma importante palestra. Ele simplesmente segue por onde aponta o rapaz, sem sobressalto, que aos oitenta e tantos muito mais já terá visto para com tão pouco se surpreender, vindo a dar num corredor amplo e bem iluminado, ao qual confluem muitas portas brancas e ao término do qual adentram numa sala ampla, onde os recebe um homem vestido com apuro e simplicidade, na casa dos cinqüenta, levantando-se com deferência e alegria ao vê-los chegar. Agradece ao que parece ser o assistente, dispensa-o respeitosamente e estende a mão para cumprimentar o visitante que, ato contínuo, toma-a, sentindo-a firme, amigável e quente.


Convidado, sentou-se e ficou à vontade, passando rapidamente os olhos na ampla estante coberta de livros que se situava às costas do homem que o recebia, onde pôde perceber os mais variados títulos ligados às religiões universais, filosofia, história e histórias as mais diversas, como se ali se encontrassem as mais importantes obras já registradas pelo conhecimento humano.


Sem delongas nem titubeios, apresentou-se de maneira simples e cordial, ressaltando que há muito que ansiava por revê-lo, ao que ele não pôde deixar de interpelar:


- Sinto muito, mas o senhor disse rever-me?!


- Foi exatamente o que eu disse. Por mais que não te lembres, não é a primeira vez que nos encontramos. E te garanto que não será a última.


- Eu quase me deixo render à tentação de usar o clichê "não creio no que meus olhos vêem", mas se não me vali de tais recursos até a presente altura da vida, não é agora que o faria. E, por falar nisso, esta sala, o senhor, esta agradável palestra que estamos tendo, por acaso significariam que eu morri?


- Por acaso é como te sentes?! Morto?!


- Honestamente, nunca me senti tão vivo.


- Pois. Nunca foste homem de crer no que te dissessem. Crê, então, no que por ora vês. E principalmente no que sentes, que às vezes é de se confiar muito mais.


- Creio, portanto, que, sendo quem dizes que és, e quem sou eu para descrer, se assim também o sinto, creio que lhe deva escusas por algumas poucas e boas que andei a dizer lá por baixo.


- Escusas?! – ar de surpresa consternada – Por mais que esquadrinhe e reesquadrinhe os arquivos de tudo o que deixaste dito ou escrito, ou mesmo subentendido, não vejo motivo nenhum para que te escuses.


- Bom, mas asseguro-te de que muitos de teus representantes lá embaixo não partilharão desta tua opinião. Acreditam que minhas palavras, comentários, crenças ou descrenças, foram de grande nocividade à Humanidade inteira e, se tal existisse, folgariam no momento em saber que ardo nas chamas do inferno.


- Em primeiro lugar, creio que seja desnecessário esclarecer que muitos daqueles que se intitulam meus representantes não reúnem sombra das qualidades necessárias para desempenhar tal papel; que muito ainda lhes falta para tanto. Crês nisso, estou certo, daí tuas críticas e alfinetadas. Ademais, sabemos todos, e o simples mencioná-lo faz sangrar meu coração, quantas atrocidades já andou a cometer o homem, supostamente em meu nome e com meu aval.


- Ora, pois. E eu não sei quantos desejaram, secretamente ou nem tanto, verem-me arder numa grossa coluna de fogo? Graças a Deus vivemos em outros tempos.


- Por mim, lhe asseguro que tais tempos nefastos jamais haveriam existido. Entretanto, asserena-te, que todas as ofensas tomadas em meu nome, por lá mesmo ficaram. No meio de tanta maldade que ainda teima em grassar, tanta intolerância, torpeza e ganância, não seriam teus engenhosos jogos de palavras que me haveriam de provocar qualquer sentimento negativo. Os que os acolheram por ofensas, pessoalmente o fizeram. A mim nada tens de que te escusares.


- Folgo em sabê-lo. Afinal de contas, não me seria nada agradável carregar tal fardo pela eternidade.


- Ora, mas quer dizer que em eternidade crerás? E que por aqui quedarás a contemplar, comer maçãs e chupar uvas com os anjinhos? Para um descrente, até que me estás saindo melhor que a encomenda. – e um riso largo e gostoso se lhe estampou no rosto.


- ?!?!


- Se lá embaixo jamais te deleitaste com o ócio e a beatitude, não penses que aqui será diferente. Isto, sim, seria o inferno para ti. Preciso de tua língua ferina, de tuas palavras lépidas, de teus pensamentos sagazes, a seguirem abrindo os olhos dos homens que pecam por crer demais e em tudo. Por ora, preparas-te. Chegada a hora, voltas.


- Voltar?! Será possível que acabo de ouvir isto?


- Sim, ouviste muito bem. Agora que crês em mim, será possível que não me creias.


- Perdoa-me, mas é informação demais para um só dia.


- Não importa. Espera e verás…

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O OUTRO





Tão absorto estava, em frente à tela irritantemente branca do computador, que perdeu a noção do tempo.



As muitas palavras que começava a digitar, a esmo, e invariavelmente apagava, não traziam nenhuma idéia brilhante à mente. Era tudo um vazio. O máximo de agitação que conseguia era o piscar lento e previsível do cursor.



Por isso o susto, quando, ao levantar os olhos do monitor, deparou-se com um homem sentado à sua frente, fitando-o com dissimulada desatenção e um sorriso irônico no rosto.



- C-como você entrou aqui?!



O outro arqueou uma sobrancelha e alargou alguns milímetros o sorriso irônico.



- Curioso… A maioria das pessoas se preocuparia, primeiro, em perguntar 'quem é você'…



- Não sou como a maioria das pessoas. E não desconverse. Responda à minha pergunta.



- Por que tamanho interesse em saber como cheguei até aqui?



- Ainda não terminei com as minhas perguntas, para que você possa começar a fazer as suas. Mas vou responder, pra não perder o gancho (ritmo é tudo): para que eu possa colocá-lo pra fora pelo mesmo caminho por onde veio. Mas, caso fique muito difícil ou maçante descobri-lo, a janela é sempre uma boa opção. – estavam no oitavo andar, era pra ser uma ameaça e tanto.



O outro continuava impassível, apenas sorrindo.



- Calma! Sem violência, que não somos disso e você sabe muito bem. Desejo apenas que tenhamos uma conversa produtiva, sem filosofices. – enquanto falava, abaixava-se para apanhar uma maleta de cromo alemão, lustrosa como ele nunca vira antes, com fechos que pareciam de puro ouro, que deixara aos pés da cadeira em que se sentara. – Eu não cheguei até aqui. Eu simplesmente estou aqui a todo instante. Aqui e onde quer que você se encontre, eu também estou, presenciando todos os momentos, dos mais públicos aos mais íntimos. Satisfeito?! Podemos passar agora à segunda pergunta?



- Que vem a ser…



- "Quem é você"…



- Não estou interessado em saber. Se você me acompanhasse o tempo todo, como diz e eu não acredito, saberia muito bem que esse tipo de pergunta, no meu entender, não passa de uma monumental perda de tempo.



- Por que pensa dessa forma?



- Porque invariavelmente as pessoas vão responder baseado em quem elas acham que são, ou, pior, quem elas gostariam de ser, esmerando-se em ocultar vícios, medos e mazelas que sempre têm, e em descrever virtudes e poderes que muito raramente condizem com a realidade. Por outro lado, se eu perguntar ao seu maior inimigo, caso reconheça que os tenha, o que seria surpreendente, este tomará o cuidado de desfiar um rosário de defeitos que, mesmo que você os tenha, eu prefiro descobrir pessoalmente, caso esteja interessado na sua pessoa. E, caso eu faça a mesma pergunta ao "seu" Severino, que, se cumprisse corretamente as suas obrigações, deveria tê-lo barrado na portaria do prédio, ele com certeza dará o melhor de si para descrever a sua aparência, altura, peso, tipo de roupa, etc. Mas isso tudo eu posso ver com meus próprios olhos. São opiniões, e estas acrescentam muito pouco à realidade.



Enquanto escutava tudo, com a mesma cara, sem se alterar, o outro retirava da pasta um volumoso livro. Capa dura e luxuosamente trabalhada, lombada com fímbrias douradas e vermelhas e grosso como uma Bíblia. Pousou delicadamente o livro sobre a mesa, sem tirar os olhos do interlocutor. Este sentiu um desejo imenso de interromper o que estava falando para perguntar "que livro é esse", mas não podia parar no meio de sua explanação. Ritmo é tudo. Continuou, agora com os olhos perscrutando o livro:



- Podemos conviver anos, até mesmo a vida inteira, com uma pessoa, sem que nos demos conta de quem ela realmente é. Aliás, acredito, mesmo, que a isso se deva a longevidade de alguns relacionamentos.



Fez uma pausa para tomar fôlego. Seus olhos moviam-se rapidamente entre o livro sobre a mesa e os olhos do outro. Prosseguiu:



- Estou certo, mesmo, de que a dificuldade na busca do autoconhecimento seja um fator preponderante à sobrevivência da espécie humana…



- Isso me parece novo. – O outro o interrompeu. – Adoraria ouvir a explicação…



Ele se encheu de razão e vaidade, estufou o peito e retomou a fala, em tom quase professoral:



- Nós, os seres ditos pensantes, passamos uma vida inteira vasculhando nosso íntimo, em busca de respostas para 'quem somos', 'de onde viemos', 'para onde vamos', 'por que vivemos' e algumas outras perguntas. Uma vida inteira, ao cabo da qual permanecem as interrogações. Penso que se nos fosse dado o poder de responder à primeira pergunta, 'quem somos', num dado momento da vida, deste momento em diante a convivência conosco mesmos se tornaria insuportável, um fardo excessivamente pesado para se transportar indefinidamente…



- É uma visão interessante, embora um tanto pessimista…



- Digamos que seja fruto de anos de observação desapaixonada e honesta, na medida do possível. E, é claro, que não se aplica aos seres que se pensam pensantes, essa gente que tem espelho mágico em casa…



O outro movia lentamente as mãos, simulando um aplauso silencioso:



- Bravo! Estamos ficando bons nisso. Mas, baseado no que acabou de me explicar magistralmente, também não vá querer perguntar que livro é esse… - e fez menção de apanhar o livro para retorná-lo à pasta.



- Livros e pessoas são muito diferentes. Que livro é esse, afinal de contas?! – rendeu-se.



- Este é o seu livro. Aqui estão reunidas todas as idéias brilhantes que você já teve e nunca pôs no papel. E este é apenas o primeiro volume. Tenho mais onze destes aqui na minha pasta, os últimos, inclusive, com as idéias que você ainda terá, mas não escreverá. – apalpou a pasta, com um brilho nos olhos.



E olhou para a pasta. Era impossível que ela contivesse doze livros daquele tamanho. Na verdade, era impossível mesmo que aquele livro tivesse saído de lá. Mas no meio de tantas idéias absurdas, aquela era uma das menos relevantes.



Olhou bem para a cara do outro, medindo-o de alto a baixo, embora estivesse sentado. Reparou bem na fisionomia, que decerto não lhe era estranha. Aqueles olhos miúdos, aquele cavanhaque, o corpo bem feito, atlético e malhado que se podia adivinhar por trás do blazer preto de grife e, principalmente, aquele sorriso malicioso. Sem dúvida, conhecia aquele homem de algum lugar, mas não conseguia se lembrar de onde (isso sempre acontecia).



- Bom, muito bom. Agora só falta você vir me dizer que é o… Você sabe quem… Aquele. E que veio comprar minha alma.



- Aquele aquele?



- É, aquele mesmo…



- Céus! Há quanto tempo você não se olha no espelho?! – ele não se lembrava. – Não é nada disso que você está pensando. Não consegue perceber as semelhanças entre nós?! Eu sou o você que daria certo, caso você fosse como eu sou, entendeu agora?



Ele então reparou bem no outro e viu que havia, realmente, muitas semelhanças. Era como se o outro fosse ele com a mesma idade, porém aparentando dez anos menos. Bem trajado, altivo, cabelos bem cortados, uns 10% menos de gordura corporal e aquele sorriso vitorioso de dar nojo em escritor de auto-ajuda.



- Sei. E o que você quer? Pode parar com essa lengalenga de proposta irrecusável e vamos direto ao assunto.



- Vim lhe oferecer os livros contendo todas as idéias geniais que você teve e ainda terá, em crônicas, poemas e até alguns romances. Sucesso garantido de crítica e público. Tudo dentro das normas, revisado conforme as normas ortográficas vigentes. É só publicar. O pacote inclui os contratos com as editoras e umas duas entrevistas no Jô.



- Interessante. Mas quanto isso vai me custar?



- Tudo isso pelo módico preço da sua alma. E nem precisa entregar agora. Pense bem, estou lhe oferecendo algo que você sempre buscou em troca de uma coisa com a qual você nunca se preocupou.



Ele levantou-se da cadeira, esfregou as mãos suadas.



- É tentador. Mas eu não estou interessado. Agora, se puder me dar licença, eu preciso trabalhar.



- C-como assim, não está interessado?! É a oportunidade da sua vida!



- Mas eu não estou interessado. Não estou nem certo de ter uma alma e, mesmo que tivesse, duvido que pudesse valer grande coisa. Agora, faça o favor de se retirar.



- Você não entendeu nada do que eu disse?! Eu não tenho como me retirar. Eu existo aqui, ao seu lado e estou irremediavelmente ligado a você até o fim. Por mais que eu quisesse, eu não consigo me afastar…



Ele aproximou-se, agarrou o outro pelo colarinho e pelos fundilhos.



E, sob gritos e protestos desesperados, atirou-o pela janela.



A pasta teve o mesmo destino, logo em seguida.



- A proposta não me interessa… Mas fico com o personagem…