segunda-feira, 22 de novembro de 2010

AUTOAJUDA RICARDIANA II



DICA DO DIA

QUE TUDO O QUE FIZERES COM A BOCA SEJA BOM E PRAZEROSO

Obs : o dia tem 24 horas

foto gentilmente cedida por Mariana Pandini
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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

PETER





Antes que se afastasse demais do chão, ainda tive tempo de olhar em seus olhos.


Refletiam o mesmo brilho de sempre.


Aprendi com o Jornalismo que o mesmo de sempre não é factual… não é notícia… mas já esqueci.


Era o mesmo brilho de sempre, e isso pra mim é notícia, seja amanhã ou daqui a 40 anos (é o tempo que se costuma levar, vagando pelo deserto, para se chegar à Terra Prometida).


Não sei se ele ouviu. Tem certas coisas que deixamos para depois do último momento. Talvez na esperança, mesmo, de que não sejam ouvidas.


Mas balbuciei entre lágrimas escondidas no coração:


- Quando crescer, quero ser igual a você!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

PRA NÃO DIZER QUE SÓ FALEI DE FLORES

PRA NÃO DIZER QUE SÓ FALEI DE FLORES
(CAMINHANDO E PLANTANDO)
falei de cinzas,
das chamas não precisei...
falei de quedas,
recomeços,
andares e retropeços.
só esqueci de te contar que eu sei voar.
mas essas coisas a gente não sai por aí falando.
bate asas e vai...
falei também de sóis,
de horizontes e de paz.
pena que não ouviu:
o chão te interessa mais...
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

AUTOAJUDA RICARDIANA


AUTOAJUDA RICARDIANA - PRIMEIRO FASCÍCULO (e, se for só este, será ainda, simultaneamente, o único e o último)


QUEM VOCÊ GOSTARIA DE ENCONTRAR NO ASILO?


Não tente entender errado a pergunta acima... Eu explico:


Você não está indo visitar ninguém.


Chegou a sua vez, seja daqui a 50, 60 anos, ninguém saberá. O fato é que, do jeito que Ciência anda, em pouco tempo estaremos entrando na meia idade aos 80. E em atividade sexual (eu ia dizer sexualmente ativos, mas poderia causar polêmica)!


Assim como chega uma hora em que você pára de se perguntar (ou, pelo menos, deveria): "QUEM EU LEVARIA PARA UMA ILHA DESERTA?"


E pára para se perguntar: "QUEM EU TRARIA DE VOLTA DA ILHA DESERTA?"


EROS está saciado, mas nem por isso a festa precisa terminar.


É a hora do ÁGAPE.


A boa notícia é que o barco é grande, cabe muita gente. Não tem mais aquela história de caber uma pessoa só. (Por favor, notem que eu não estou sugerindo uma orgia marítima. EROS ficou na ilha. Vai ter sempre alguém por lá, mesmo.)


E não precisa pressa, porque ele não está pra zarpar. Pode construir sua lista com calma, diariamente. Vasculhe o passado com o carinho de quem se procura em velhas fotos. E a amores antigos. Encontre aquela voz, aquele sorriso, aquele abraço, aquele colo, aquele espôrro, as piadas de D. Pedro... ou o autor daquele gol do seu time...


Busque aquele carinho com cheiro de lavanda, que é como devem cheirar as coisas guardadas com o devido cuidado. Aquele abraço quentinho, ou aquele abaixar tímido dos primeiros olhares.


Sim, porque a vida é feita desses momentos, também.


Mas tem gente que prefere escolher as dores...


E não reparem no título, por favor.


ASILO vai ser o nome da nossa colônia de férias.


Se Deus quiser!!!


"Uno vuelve siempre a los viejos sítios donde amó la vida."



AVIS TARA

JÁ REPAROU COMO TEM CANÇÃO COM BEIJA-FLOR?
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

DISTÂNCIA

De longe
Somos novidades sempre frescas
Com uma generosa pitada de saudade

Como o sol que beija a folha a cada dia
E lhe faz lembrar-se viva.
Luz gostosa
Que, de perto, queimaria


Noite é sempre luz de quem caminha


Luzires,


Ires e vires,


Inda que solitário


Refletem-se na luz dos postes.


Nosso único temor mais que certo:


O arrebol.


Os bichos do dia seguem tranqüilos,


Sem terem que brilhar.


Nossas antenas,


Captando vibrações da lua sempre cheia de nossos sonhos.


Lobisomens passeiam pela madrugada,


Contra os faróis dos carros.


Lobisomens,


Somos nós, poetas,


Bêbados de sentimentos,


Superumanos,


Lobisumanos.

04/01/1993

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

DO LADO DE LÁ




Abriu os olhos como os fechara: lenta e calmamente.


Por mais que estivesse sem os óculos, percebeu que se encontrava num local totalmente diferente daquele onde se deitara na noite anterior. Aliás, pela primeira vez em muitos anos sentia não precisar dos óculos, que invariavelmente eram a primeira coisa que procurava ao despertar, mas isso só veio a perceber mais tarde. Chamavam-lhe muito mais a atenção a brancura de tudo naquele ambiente onde abrira os olhos, das paredes ao piso, da mobília simples à porta, que pareciam refletir uma luz calma e cálida, como a paz que sentia no regaço de Pilar (onde estaria ela?!).


Enquanto cismava, e quando se cisma não se sabe quanto tempo passa, a porta, branca, como todo o mais, abriu-se lentamente, não sem antes receber dois leves toques com o nós de dedos muito suaves, dando passagem a um jovem distinto, que juventude é o que mais se encontra por aí, quando se passa dos oitenta; já distinção… o jovem cumprimenta-o com um sorriso sinceramente cordial no rosto, pergunta-lhe como se sente e informa que o esperam em outra sala para uma importante palestra. Ele simplesmente segue por onde aponta o rapaz, sem sobressalto, que aos oitenta e tantos muito mais já terá visto para com tão pouco se surpreender, vindo a dar num corredor amplo e bem iluminado, ao qual confluem muitas portas brancas e ao término do qual adentram numa sala ampla, onde os recebe um homem vestido com apuro e simplicidade, na casa dos cinqüenta, levantando-se com deferência e alegria ao vê-los chegar. Agradece ao que parece ser o assistente, dispensa-o respeitosamente e estende a mão para cumprimentar o visitante que, ato contínuo, toma-a, sentindo-a firme, amigável e quente.


Convidado, sentou-se e ficou à vontade, passando rapidamente os olhos na ampla estante coberta de livros que se situava às costas do homem que o recebia, onde pôde perceber os mais variados títulos ligados às religiões universais, filosofia, história e histórias as mais diversas, como se ali se encontrassem as mais importantes obras já registradas pelo conhecimento humano.


Sem delongas nem titubeios, apresentou-se de maneira simples e cordial, ressaltando que há muito que ansiava por revê-lo, ao que ele não pôde deixar de interpelar:


- Sinto muito, mas o senhor disse rever-me?!


- Foi exatamente o que eu disse. Por mais que não te lembres, não é a primeira vez que nos encontramos. E te garanto que não será a última.


- Eu quase me deixo render à tentação de usar o clichê "não creio no que meus olhos vêem", mas se não me vali de tais recursos até a presente altura da vida, não é agora que o faria. E, por falar nisso, esta sala, o senhor, esta agradável palestra que estamos tendo, por acaso significariam que eu morri?


- Por acaso é como te sentes?! Morto?!


- Honestamente, nunca me senti tão vivo.


- Pois. Nunca foste homem de crer no que te dissessem. Crê, então, no que por ora vês. E principalmente no que sentes, que às vezes é de se confiar muito mais.


- Creio, portanto, que, sendo quem dizes que és, e quem sou eu para descrer, se assim também o sinto, creio que lhe deva escusas por algumas poucas e boas que andei a dizer lá por baixo.


- Escusas?! – ar de surpresa consternada – Por mais que esquadrinhe e reesquadrinhe os arquivos de tudo o que deixaste dito ou escrito, ou mesmo subentendido, não vejo motivo nenhum para que te escuses.


- Bom, mas asseguro-te de que muitos de teus representantes lá embaixo não partilharão desta tua opinião. Acreditam que minhas palavras, comentários, crenças ou descrenças, foram de grande nocividade à Humanidade inteira e, se tal existisse, folgariam no momento em saber que ardo nas chamas do inferno.


- Em primeiro lugar, creio que seja desnecessário esclarecer que muitos daqueles que se intitulam meus representantes não reúnem sombra das qualidades necessárias para desempenhar tal papel; que muito ainda lhes falta para tanto. Crês nisso, estou certo, daí tuas críticas e alfinetadas. Ademais, sabemos todos, e o simples mencioná-lo faz sangrar meu coração, quantas atrocidades já andou a cometer o homem, supostamente em meu nome e com meu aval.


- Ora, pois. E eu não sei quantos desejaram, secretamente ou nem tanto, verem-me arder numa grossa coluna de fogo? Graças a Deus vivemos em outros tempos.


- Por mim, lhe asseguro que tais tempos nefastos jamais haveriam existido. Entretanto, asserena-te, que todas as ofensas tomadas em meu nome, por lá mesmo ficaram. No meio de tanta maldade que ainda teima em grassar, tanta intolerância, torpeza e ganância, não seriam teus engenhosos jogos de palavras que me haveriam de provocar qualquer sentimento negativo. Os que os acolheram por ofensas, pessoalmente o fizeram. A mim nada tens de que te escusares.


- Folgo em sabê-lo. Afinal de contas, não me seria nada agradável carregar tal fardo pela eternidade.


- Ora, mas quer dizer que em eternidade crerás? E que por aqui quedarás a contemplar, comer maçãs e chupar uvas com os anjinhos? Para um descrente, até que me estás saindo melhor que a encomenda. – e um riso largo e gostoso se lhe estampou no rosto.


- ?!?!


- Se lá embaixo jamais te deleitaste com o ócio e a beatitude, não penses que aqui será diferente. Isto, sim, seria o inferno para ti. Preciso de tua língua ferina, de tuas palavras lépidas, de teus pensamentos sagazes, a seguirem abrindo os olhos dos homens que pecam por crer demais e em tudo. Por ora, preparas-te. Chegada a hora, voltas.


- Voltar?! Será possível que acabo de ouvir isto?


- Sim, ouviste muito bem. Agora que crês em mim, será possível que não me creias.


- Perdoa-me, mas é informação demais para um só dia.


- Não importa. Espera e verás…

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O OUTRO





Tão absorto estava, em frente à tela irritantemente branca do computador, que perdeu a noção do tempo.



As muitas palavras que começava a digitar, a esmo, e invariavelmente apagava, não traziam nenhuma idéia brilhante à mente. Era tudo um vazio. O máximo de agitação que conseguia era o piscar lento e previsível do cursor.



Por isso o susto, quando, ao levantar os olhos do monitor, deparou-se com um homem sentado à sua frente, fitando-o com dissimulada desatenção e um sorriso irônico no rosto.



- C-como você entrou aqui?!



O outro arqueou uma sobrancelha e alargou alguns milímetros o sorriso irônico.



- Curioso… A maioria das pessoas se preocuparia, primeiro, em perguntar 'quem é você'…



- Não sou como a maioria das pessoas. E não desconverse. Responda à minha pergunta.



- Por que tamanho interesse em saber como cheguei até aqui?



- Ainda não terminei com as minhas perguntas, para que você possa começar a fazer as suas. Mas vou responder, pra não perder o gancho (ritmo é tudo): para que eu possa colocá-lo pra fora pelo mesmo caminho por onde veio. Mas, caso fique muito difícil ou maçante descobri-lo, a janela é sempre uma boa opção. – estavam no oitavo andar, era pra ser uma ameaça e tanto.



O outro continuava impassível, apenas sorrindo.



- Calma! Sem violência, que não somos disso e você sabe muito bem. Desejo apenas que tenhamos uma conversa produtiva, sem filosofices. – enquanto falava, abaixava-se para apanhar uma maleta de cromo alemão, lustrosa como ele nunca vira antes, com fechos que pareciam de puro ouro, que deixara aos pés da cadeira em que se sentara. – Eu não cheguei até aqui. Eu simplesmente estou aqui a todo instante. Aqui e onde quer que você se encontre, eu também estou, presenciando todos os momentos, dos mais públicos aos mais íntimos. Satisfeito?! Podemos passar agora à segunda pergunta?



- Que vem a ser…



- "Quem é você"…



- Não estou interessado em saber. Se você me acompanhasse o tempo todo, como diz e eu não acredito, saberia muito bem que esse tipo de pergunta, no meu entender, não passa de uma monumental perda de tempo.



- Por que pensa dessa forma?



- Porque invariavelmente as pessoas vão responder baseado em quem elas acham que são, ou, pior, quem elas gostariam de ser, esmerando-se em ocultar vícios, medos e mazelas que sempre têm, e em descrever virtudes e poderes que muito raramente condizem com a realidade. Por outro lado, se eu perguntar ao seu maior inimigo, caso reconheça que os tenha, o que seria surpreendente, este tomará o cuidado de desfiar um rosário de defeitos que, mesmo que você os tenha, eu prefiro descobrir pessoalmente, caso esteja interessado na sua pessoa. E, caso eu faça a mesma pergunta ao "seu" Severino, que, se cumprisse corretamente as suas obrigações, deveria tê-lo barrado na portaria do prédio, ele com certeza dará o melhor de si para descrever a sua aparência, altura, peso, tipo de roupa, etc. Mas isso tudo eu posso ver com meus próprios olhos. São opiniões, e estas acrescentam muito pouco à realidade.



Enquanto escutava tudo, com a mesma cara, sem se alterar, o outro retirava da pasta um volumoso livro. Capa dura e luxuosamente trabalhada, lombada com fímbrias douradas e vermelhas e grosso como uma Bíblia. Pousou delicadamente o livro sobre a mesa, sem tirar os olhos do interlocutor. Este sentiu um desejo imenso de interromper o que estava falando para perguntar "que livro é esse", mas não podia parar no meio de sua explanação. Ritmo é tudo. Continuou, agora com os olhos perscrutando o livro:



- Podemos conviver anos, até mesmo a vida inteira, com uma pessoa, sem que nos demos conta de quem ela realmente é. Aliás, acredito, mesmo, que a isso se deva a longevidade de alguns relacionamentos.



Fez uma pausa para tomar fôlego. Seus olhos moviam-se rapidamente entre o livro sobre a mesa e os olhos do outro. Prosseguiu:



- Estou certo, mesmo, de que a dificuldade na busca do autoconhecimento seja um fator preponderante à sobrevivência da espécie humana…



- Isso me parece novo. – O outro o interrompeu. – Adoraria ouvir a explicação…



Ele se encheu de razão e vaidade, estufou o peito e retomou a fala, em tom quase professoral:



- Nós, os seres ditos pensantes, passamos uma vida inteira vasculhando nosso íntimo, em busca de respostas para 'quem somos', 'de onde viemos', 'para onde vamos', 'por que vivemos' e algumas outras perguntas. Uma vida inteira, ao cabo da qual permanecem as interrogações. Penso que se nos fosse dado o poder de responder à primeira pergunta, 'quem somos', num dado momento da vida, deste momento em diante a convivência conosco mesmos se tornaria insuportável, um fardo excessivamente pesado para se transportar indefinidamente…



- É uma visão interessante, embora um tanto pessimista…



- Digamos que seja fruto de anos de observação desapaixonada e honesta, na medida do possível. E, é claro, que não se aplica aos seres que se pensam pensantes, essa gente que tem espelho mágico em casa…



O outro movia lentamente as mãos, simulando um aplauso silencioso:



- Bravo! Estamos ficando bons nisso. Mas, baseado no que acabou de me explicar magistralmente, também não vá querer perguntar que livro é esse… - e fez menção de apanhar o livro para retorná-lo à pasta.



- Livros e pessoas são muito diferentes. Que livro é esse, afinal de contas?! – rendeu-se.



- Este é o seu livro. Aqui estão reunidas todas as idéias brilhantes que você já teve e nunca pôs no papel. E este é apenas o primeiro volume. Tenho mais onze destes aqui na minha pasta, os últimos, inclusive, com as idéias que você ainda terá, mas não escreverá. – apalpou a pasta, com um brilho nos olhos.



E olhou para a pasta. Era impossível que ela contivesse doze livros daquele tamanho. Na verdade, era impossível mesmo que aquele livro tivesse saído de lá. Mas no meio de tantas idéias absurdas, aquela era uma das menos relevantes.



Olhou bem para a cara do outro, medindo-o de alto a baixo, embora estivesse sentado. Reparou bem na fisionomia, que decerto não lhe era estranha. Aqueles olhos miúdos, aquele cavanhaque, o corpo bem feito, atlético e malhado que se podia adivinhar por trás do blazer preto de grife e, principalmente, aquele sorriso malicioso. Sem dúvida, conhecia aquele homem de algum lugar, mas não conseguia se lembrar de onde (isso sempre acontecia).



- Bom, muito bom. Agora só falta você vir me dizer que é o… Você sabe quem… Aquele. E que veio comprar minha alma.



- Aquele aquele?



- É, aquele mesmo…



- Céus! Há quanto tempo você não se olha no espelho?! – ele não se lembrava. – Não é nada disso que você está pensando. Não consegue perceber as semelhanças entre nós?! Eu sou o você que daria certo, caso você fosse como eu sou, entendeu agora?



Ele então reparou bem no outro e viu que havia, realmente, muitas semelhanças. Era como se o outro fosse ele com a mesma idade, porém aparentando dez anos menos. Bem trajado, altivo, cabelos bem cortados, uns 10% menos de gordura corporal e aquele sorriso vitorioso de dar nojo em escritor de auto-ajuda.



- Sei. E o que você quer? Pode parar com essa lengalenga de proposta irrecusável e vamos direto ao assunto.



- Vim lhe oferecer os livros contendo todas as idéias geniais que você teve e ainda terá, em crônicas, poemas e até alguns romances. Sucesso garantido de crítica e público. Tudo dentro das normas, revisado conforme as normas ortográficas vigentes. É só publicar. O pacote inclui os contratos com as editoras e umas duas entrevistas no Jô.



- Interessante. Mas quanto isso vai me custar?



- Tudo isso pelo módico preço da sua alma. E nem precisa entregar agora. Pense bem, estou lhe oferecendo algo que você sempre buscou em troca de uma coisa com a qual você nunca se preocupou.



Ele levantou-se da cadeira, esfregou as mãos suadas.



- É tentador. Mas eu não estou interessado. Agora, se puder me dar licença, eu preciso trabalhar.



- C-como assim, não está interessado?! É a oportunidade da sua vida!



- Mas eu não estou interessado. Não estou nem certo de ter uma alma e, mesmo que tivesse, duvido que pudesse valer grande coisa. Agora, faça o favor de se retirar.



- Você não entendeu nada do que eu disse?! Eu não tenho como me retirar. Eu existo aqui, ao seu lado e estou irremediavelmente ligado a você até o fim. Por mais que eu quisesse, eu não consigo me afastar…



Ele aproximou-se, agarrou o outro pelo colarinho e pelos fundilhos.



E, sob gritos e protestos desesperados, atirou-o pela janela.



A pasta teve o mesmo destino, logo em seguida.



- A proposta não me interessa… Mas fico com o personagem…

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

EM DEFESA DO PATRIMÔNIO NACIONAL




A reunião aconteceu a portas fechadas, cercada de sigilo, pompa e circunstância. O assunto era grave e urgente e necessitava da máxima atenção. Nada dos flashes e dos ouvidos das imprensas de todas as cores, para que os participantes pudessem deliberar à vontade, na estrita defesa dos interesses da classe.


Encabeçando a discussão e presidindo os trabalhos, ele, o Saci-Pererê, um líder natural, devido à sua popularidade e notoriedade, não conseguia permanecer sentado. Pulava de um lado para o outro, sentindo falta de seu inseparável cachimbo (Isso mesmo. A lei antitabagista já havia chegado ali, também) e tentando conter a algazarra daquele grupo, no mínimo, bizarro.


Estavam presentes a Mula-sem-cabeça, o Curupira, o Lobisomem (o brasileiro, não aquele dos filmes americanos), a Mãe-d'Água, o Boitatá e o Negrinho do Pastoreio. O Boto também fora convocado, mas não apareceu. Com certeza se enrabichou atrás de algum rabo de saia no caminho e esqueceu da vida.


A pauta daquela reunião extraordinária era o combate à absurda e inaceitável invasão de personagens alienígenas no folclore brasileiro (assim mesmo, cheio de ênfase e adjetivos. Entenda-se, aqui, alienígena não como seres vindos de outros planetas, que, ainda bem, a coisa ainda não chegou a esse ponto; mas estrangeiros, de um modo geral, com especial antipatia pelos vindos do hemisfério norte).


O Saci limpou a garganta, exasperado, e pediu silêncio aos presentes, para que pudessem dar início às discussões. Atrás de si, um imenso mural, de autoria desconhecida, mostrava o momento exato do nascimento de Macunaíma, que era reverenciado como um semideus entre eles.


- Senhoras e senhores, sem maiores delongas, vamos direto ao assunto: nossa classe vem sendo constantemente ameaçada pela invasão de seres alienígenas, completamente estranhos ao cenário folclórico nacional. Estamos seriamente ameaçados de extinção e não podemos simplesmente ficar de braços cruzados, esperando que isso aconteça.


A Mãe-d'Água, suando em bicas, pediu a palavra e perguntou, impaciente:


- Senhor Saci, gostaríamos que fosse mais específico, para que possamos agilizar essa conversa. A que invasores, especificamente, o senhor se refere?


- Ora, minha cara, eu me refiro a todos esses personagens que vêm tomando conta do imaginário popular, ocupando um espaço que outrora nos pertenceu. Falo aqui dos vampiros, dos duendes, elfos e afins, dos cabeça-de-abóbora, ETs das mais variadas origens e espécies, Papai Noel…


Neste momento, a Mula-sem-Cabeça soltou um relincho das profundezas de suas entranhas, batendo irritada os cascos dianteiros sobre a mesa de reuniões. Uma algazarra geral se instalou no recinto, contida a muito custo pelo senhor presidente.


- Está bem, está bem! Me desculpem! Vamos abrir uma exceção para o Papai Noel. – ele já previa que aquele seria um ponto sensível da reunião, que teria que ser trazido à tona outras vezes. O fato é que não tolerava a concorrência com o outro homem do gorro vermelho, aquele que todo mundo esperava, mas era uma questão pessoal, e não podia deixar que isso transparecesse, para não estragar seus planos. - Mas não podemos contemporizar, amigos. Afinal de contas, quantas de nossas crianças, hoje em dia, sabem quando se comemora o dia de Cosme e Damião? Pouquíssimas. Agora, Halloween todo mundo sabe quando é. As escolas não comemoram mais o dia nacional do folclore. E desde que o Lobato nos deixou (era o patrono deles, com direito a busto de bronze em lugar de destaque na sala e tudo mais) vemos cada vez mais nosso espaço minguar, sendo ocupado por bruxinhos ingleses ou vampiros americanos. Precisamos tomar uma atitude urgentemente.


O Lobisomem, visto com certa desconfiança por todos, por ter parentes influentes em Hollywood, tentou colocar panos quentes:


- Caros colegas, não vejo motivo pra tanto alarde. Afinal de contas, a situação é geral e bem mais abrangente. A invasão está ocorrendo em todos os planos. O que precisamos fazer, ao invés de combater, é nos adaptar. Basta olhar por aí: não existe mais lanchonete, é só fast food pra lá e pra cá; placa virou outdoor; tem personal pra tudo que se imaginar. Até a casa da Tia Lúcia, quem não se lembra dela?!, Virou Summer House. O problema, como podem ver, não é só nosso. A globalização é uma realidade e chegou pra ficar.


O Curupira, sempre parecendo alheio a tudo, pediu a palavra e sugeriu:


- Senhor presidente, eu sugiro que estabeleçamos um plano e que o acompanhemos passo a passo.


O saci, escondendo a irritação pelo trocadilho, devolveu, em tom cordial entre dentes:


- Naturalmente, nobre companheiro. Desde que tomemos as precauções necessárias para não andar para trás.


Nova algazarra geral. As gargalhadas do Boitatá incendiaram a assembléia e, quase, a própria mesa.


Nisso entra na sala, de supetão, um autêntico Leprechaun, com sua vasta cabeleira ruiva, sua barbicha desgrenhada e sua indumentária verde da cabeça aos pés, portando um enorme trevo de quatro folhas. Silêncio geral.


- Mister Pererê, eu lamento interrompê-lo, mas receio que tenha um assunto da maior urgência a tratar consigo. Poderia me conceder um instante da sua atenção? Prometo que serei breve.


Todos olharam prontamente para o Saci, que não sabia o que fazer.


- Meu senhor, estamos no meio de uma reunião importante, com ordens expressas de não sermos interrompidos. Não sei como o senhor chegou até aqui, mas tenho que lhe pedir que se retire.


- Eu insisto. – seu tom de voz era grave de dar medo - Não tomarei mais que dois minutos de seu tempo. Enquanto isso, as damas e cavalheiros aqui presentes podem aproveitar para saborear um pouco desse maravilhoso chá, que trago como uma cortesia – estalou os dedos e uma fumegante xícara da mais nobre porcelana apareceu em frente a cada um dos participantes.


O Saci pediu, então, que o inusitado visitante, o acompanhasse a uma sala reservada, onde pudessem conversar mais à vontade. Dois minutos mais tarde, retiram-se os dois da sala, cumprimentam-se discretamente, e o Leprechaun deixa a sala, despedindo-se dos demais presentes com um leve aceno de cabeça. As xícaras ficaram.


O Saci toma novamente a palavra, em meio ao falatório geral:


- Caros companheiros, eu lamento informar, mas um assunto familiar da máxima urgência me obriga a deixá-los neste momento. Nossa reunião terá que ser adiada por tempo indeterminado. Meus assessores entrarão em contato com vocês, marcando uma nova data para que demos andamento no que iniciamos hoje.


Os participantes, embora fizessem questão de demonstrar uma profunda insatisfação, suspiravam de alívio. Enfim poderiam deixar aquela sala e ir cuidar de suas vidas. Esperariam uma nova convocação, que nunca apareceu.


No fim daquele ano, a população assistiu, estarrecida, à aparição do Saci (sem cachimbo, em respeito ao politicamente correto) no mais novo filme do Harry Potter.


Com direito a fala e tudo.


Em inglês britânico.


E corretíssimo.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

ÚLTIMAS PALAVRAS




O Homem é o único bicho que tem consciência da própria finitude.


Alguns críticos argumentam que esse seria, talvez (sempre o talvez) o mais grave defeito de fábrica da raça. Afinal de contas, trata-se da principal mola propulsora de todos os conflitos existenciais.


Outros, por sua vez, sustentam que o projeto foi idealizado e executado com perfeição, que os primeiros exemplares foram criados para viver eternamente, sem preocupações, mazelas ou doenças, habitando e povoando o jardim do Éden. Mas que, num determinado momento, e talvez (sempre talvez) cedo demais, uma falha humana (e, a rigor, falhar também seria um atributo exclusivo da raça humana, mas isso é assunto pra outra hora) haveria forçado a uma mudança nos planos.


De uma forma ou de outra, já temos em quem colocar a culpa, o que é, no mínimo, fonte de grande conforto.


Tinha um amigo que se chamava Nestor (e isso, por si só, já daria uma crônica), que, como a grande maioria de seus colegas humanos, passou a prestar atenção na consciência de sua própria finitude (em Português claro – preocupar-se com a morte) quando completou 50 anos de vida. É a idade clássica para esse tipo de reação, pois acredita-se que se tenha chegado à metade da vida, embora eu mesmo conheça bem poucas pessoas que tenham chegado ao dobro disso.


Além das preocupações de praxe, como a promessa de parar de fumar (que, acredita-se, por si só, já aumenta em 10% a expectativa de vida do indivíduo), comprar mais frutas, verduras e legumes, que invariavelmente estragavam na geladeira, mas enfeitavam bastante, matricular-se numa academia e tomar mais vinho (como os médicos divergiam entre um cálice e uma garrafa por dia, tomava os dois, só por precaução), meu amigo Nestor sempre se preocupou em demasia com a impressão que causava nas pessoas que estavam à sua volta. Como o físico não era lá essas coisas, cuidava com esmero do vocabulário, sempre com tiradas inteligentes e espirituosas, que a maioria dos circunstantes não entendia, mas procurava sorrir e concordar sempre.


Pois meu amigo Nestor fez questão de deixar claro, em todas as suas conversas com amigos, colegas de trabalho e interlocutores em geral, que gostaria que as suas últimas palavras, quando enfim expirasse, deveriam ser gravadas em sua sepultura. Explicava sempre, porque eram poucos os que compreendiam de imediato quando ele mencionava a palavra "epitáfio".


Como felizmente não é dado ao homem conhecer o momento exato de sua morte, salvo nos casos de suicídio, para não ser pego de surpresa, Nestor desenvolveu o hábito de soltar pérolas filosóficas em determinados horários do dia.


Variava sempre o repertório, ou, pelo menos, assim parecia, porque depois de alguns dias do que se esperava que fosse apenas uma nova mania passageira, mas que não passou, ninguém mais prestava muita atenção em suas elucubrações.


Alice, sua mulher, durante as primeiras semanas até fingia anotar seus "pensamentos". A empregada, por sua vez, apenas se benzia e dizia "ai, seu Nestor fala umas palavras que nem parecem coisa de Deus!". E se arrepiava inteira.


Seus horários fixos incluíam a hora de deitar e levantar, antes do almoço, a chegada no escritório, os inícios de reuniões e os happy hours, sem contar os momentos que ele julgava apropriados para atirar solenemente seus pseudo aforismos do tipo:


"O homem, ao acercar-se o ocaso de sua existência…"


"Anelemos por um novo lar num zimbório nimbado de estrelas."


"Estou pronto para o amplexo derradeiro ao pó de onde me criei."


"Que o orbe que nos abriga não se turbe ao olvido de meu ser."


E por aí seguia. Pitoresco, no começo. Chato, logo depois. E nos muitos anos que se seguiram, tornou-se insuportável a mania de filosofar do Nestor, até chegar a um ponto em que quase nada do que ele dizia fazia o menor sentido. E ele apenas sorria, com um ar de despretensiosa superioridade.


Foram milhares de frases, algumas até inteligíveis, e, na manhã em que o braço adormeceu, o ar começou a faltar e uma dor intensa apossou-se de seu velho corpo, com os sinais indubitáveis de um infarto fulminante, sua mulher entrou no quarto, assustada com os grunhidos e deparou-se com o marido nos estertores da morte. Com a cara roxa, o olhar vidrado e a boca escancarada, conseguiu ainda pronunciar três palavrinhas. E expirou.


Dona Alice, ao encomendar a lápide, acabou por escolher distraidamente uma de suas frases mais recorrentes (sim, todos notavam que ele repetia sistematicamente as frases que dizia).


Porque suas últimas palavras, de verdade, não dava pra gravar na sepultura.


Nem pra repetir aqui…

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O CORPO FALA – DIÁLOGO DE UM PÊNIS COM SEU HOMEM



Manhã de quinta-feira, agenda lotada, ele está em frente ao espelho, enrolado na toalha, terminando de fazer a barba, quando escuta uma voz vinda lá de baixo.


Ele olhou para os lados, apertou os olhos, mirou-se no espelho e só viu seu próprio rosto, semi coberto de espuma de barbear. Não havia mais ninguém no banheiro e estava sozinho no apartamento. Com certeza tivera apenas uma alucinação auditiva, produto do sono e da vontade de ficar mais um pouquinho na cama.


- Não finja que não é com você! Você me ouviu! – e agora a voz surgia um pouco mais alta, grave, profunda e séria, denotando algum enfado e um princípio de irritação.


Ele largou o barbeador sobre a pia, limpou o rosto com a toalha e começou a procurar pelo banheiro.


- Q-quem é você?! E onde você está?! – só podia ser uma brincadeira do Ferreira, que estivera por ali clandestinamente com uma garota naquela semana. Mas não achou nenhum aparato eletrônico de onde pudesse estar saindo aquela voz. Apenas a boa e velha bagunça de sempre no banheiro.


- Estou aqui, onde sempre estive. E o seu grande mal sempre foi e continua sendo esse: não me dar ouvidos.


Olhou para baixo, boquiaberto. A voz provinha de algum lugar atrás da toalha que lhe cobria parcialmente o corpo. Vagarosamente abriu-a. Não havia nada de diferente por ali.


- Achou. Gênio! Assim fica melhor pra termos uma conversinha.


- Eu não acredito!... você é…


- Sim, eu sou seu pênis, sabichão. E me desculpe se eu não apareço pra você com olhinhos e uma boquinha sorridente. Acho que você já passou da idade de quem precisa dessas coisas. Além do mais, o assunto é sério.


Num átimo, milhões de coisas passaram pela sua cabeça, sendo que as palavras GREVE e, pior, APOSENTADORIA pareciam piscar como aterradores letreiros de neon. Arregalou os olhos e mal conseguiu pronunciar um "Hum?", ao que o outro prosseguiu:


- Você precisa aprender a me escutar, Alberto. Prestar mais atenção às mensagens que eu lhe transmito, nos momentos cruciais da sua vida.


- Mas eu nunca imaginei que você falasse!... Como poderia lhe escutar?


- Estou falando de comunicação não verbal, meu caro. Expressão corporal, reações, essas coisas. Eu tenho certeza de que poderia ter lhe poupado de uma série de dissabores, caso você houvesse decifrado minhas últimas mensagens. Mas não. Eu cheguei mesmo a tomar algumas atitudes drásticas, recusando-me a colaborar com aquilo que eu sabia que seria a maior furada (sem trocadilho). E você pateticamente acabou recorrendo ao maldito lugar comum do "isso nunca me aconteceu antes". Era eu que estava te avisando pra saltar fora enquanto ainda dava tempo. Não havia nada de errado com você. Muito menos comigo. Mas infelizmente você se recusou a me ouvir, a aceitar o "conselho" que eu estava lhe transmitindo. E deu no que deu.


- Você está falando da…


- Nada de nomes, por favor. Você sabe muito bem de quem eu estou falando. Só lamento ter demorado tanto a concordar comigo. Mas agora é tarde.


- Agora eu entendo. – e suspirou aliviado. – Então era isso. Mas como é que você podia ter tanta certeza, assim?


- Eu prefiro não entrar em detalhes, para não confundi-lo. Mas digamos que eu tenha uma visão mais aprofundada do assunto. Meu olhar crítico e desapaixonado me permite captar certas nuances que lhe costumam passar despercebidas. Isso sem contar a quantidade de baboseiras que eu ouvi durante todo aquele tempo. Seu grande problema foi usar a cabeça de cima para insistir naquilo. Mas tudo bem; nós nunca conseguimos trabalhar em grande sintonia, mesmo.


- Caramba! Eu não sei nem o que dizer. Foi mal te meter nessa enrascada…


- Não se desculpe. Apenas aprenda com a experiência.


- OK. Prometo que vou prestar mais atenção em você. E como eu devo lhe chamar?


- Não deve. Entenda que, se achar que precisa me chamar, é um sinal evidente de que eu não devo entrar em ação. Quando a parada for boa, estarei pronto antes mesmo que possa me chamar. E nem pense em me atribuir qualquer tipo de apelido carinhoso, senão eu te deixo na mão.


- Entendido. Quer dizer então que…


- Que o meu silêncio é a mais eloqüente das respostas. E tenho dito. Agora vá terminar de se arrumar, pra não se atrasar pro trabalho, que hoje você tem uma reunião importante.


- Foi bom você tocar nesse assunto. Tem uma assistente da diretoria que anda me dando o maior mole. É gata, mas parece ser meio complicada. O que você acha?!


- Faça a sua parte, que eu faço a minha. Afinal de contas, não custa tentar, né?!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O GARANHÃO DAS ESTRELAS





Naquele dia ele acordou muito mais sobressaltado que de praxe. E o que é pior, vários minutos antes de tocar o despertador. Ficou remexendo-se na cama, resmungando alguma coisa ininteligível, que a mulher preferiu fingir que não escutava, pra ver se ele conciliava o sono novamente, o que não aconteceu.



Saiu de casa sem tomar café, bem mais cedo que o habitual. Não revirou o jornal, como sempre fazia.



Até o porteiro do edifício que abrigava a imobiliária onde trabalhava estranhou que ele, sempre atrasado, estivesse chegando tão cedo:



- Bom dia, "Seu" Noronha. Caiu da cama?! E arreganhou os dentes num sorriso que, àquela hora da manhã, ofendia mais que xingamento à mãe. Ele respondeu com um grunhido. Não podia perder tempo; precisava ser o primeiro a chegar ao escritório.



Quando a recepcionista entrou, encontrou-o com as duas mãos na cabeça e o olhar confuso, tentando descobrir como ligar a máquina de café. Cumprimentou-o polidamente, nunca haviam trocado mais que duas palavras, e apertou o botão vermelho que se encontrava bem à sua frente, com o que a máquina pareceu tomar vida e resfolegar aquele inconfundível aroma de café que aos poucos foi inundando o amplo escritório.



Ele respirou fundo, como tentando absorver a cafeína daquele cheiro, para organizar melhor as idéias. E só então se lembrou de perguntar:



- Dona Soraia, a senhora por acaso sabe a que horas chega o Sandoval?



- Ele costuma chegar religiosamente às oito em ponto. Faltam quatro minutos.



Parecia uma eternidade. Mas não havia alternativa, senão esperar. Serviu-se de uma xícara de café e ficou andando de um lado para o outro, esperando que o Sandoval aparecesse com seu indefectível jornal debaixo do braço e sua temerária gravata estampada.



Às oito em ponto tocou a campainha anunciando a chegada do elevador. Pela porta de vidro ele pôde ver o Sandoval, sempre com as mãos cheias, caminhando apressadamente em direção à sua sala, não sem antes desejar um sonoro "bom dia", com sua voz de barítono, a Dona Soraia, que já ocupava seu posto na recepção.



- Sandoval, preciso falar com você! É urgente!



- Noronha?! O que houve?! Caiu da cama?!



Ele nem ouviu o gracejo. Foi empurrando o Sandoval em direção à sua sala, enquanto se certificava de que não estava chamando atenção demais. Havia pouca gente pelos corredores àquela hora.



Entraram, fechou a porta, passou a chave, respirou fundo, tentando recobrar o fôlego. Seus olhos pareciam querer saltar das órbitas.



- Meu Deus! O que houve?! Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem com a Gracinha? – Eram cunhados, o que sempre servia de explicação para a excessiva tolerância do Sandoval (Doutor Miranda, como o chamavam os demais funcionários) para com os atrasos e trapalhadas do Noronha (que todos chamavam de Noronha, mesmo. Pelos menos na sua presença.)



- Está tudo bem com a Gracinha, com o Caio e com a Gisela, também. E com o Lex (era o cachorro, numa bem humorada homenagem ao temível vilão de Gotham City, pela total ausência de pêlos, embora não fizesse mal a uma mosca), antes que me pergunte. A coisa é séria. Esta noite eu tive uma revelação e preciso contá-la pra você. Primeiríssima mão.



- Uma o quê?! – Sandoval começava a se assustar. Embora o Noronha fosse sempre um pouco enfático demais em tudo, aqueles olhos de espanto pareciam exagerados. Até mesmo pra ele.



- Uma premonição!...



- Ora, tenha a santa paciência! Você então me chega aqui todo esbaforido pra me contar um pesadelo que teve?! Sugiro que procure o Dr. Souza, meu analista. Além de ele ser muito mais indicado pra esse tipo de conversa, estou com a agenda lotada agora pela manhã. Sinto muito.



- Me escuta, Sandoval. Não foi um sonho, posso te garantir. Eu estava deitado, é verdade, mas acordei com meu celular tocando. Um toque diferente, uma música que eu nunca havia ouvido antes, tipo aquelas que anunciam uma desgraça em filme de suspense.



- Hum… - Sandoval sabia que ele não ia lhe dar sossego enquanto não dissesse o que tinha pra dizer. Passaria o dia inteiro inventando pretextos para entrar em sua sala, interfornar, esbarrar pelo corredor. Melhor acabar com aquilo logo.



- Atendi depressa, pra não acordar a Gracinha. Uma voz feminina meio rouca, muito sexy, foi logo falando: "Salve, nobre Gilson, futuro patriarca de Síron!" (Ele detestava o primeiro nome. Às vezes chegava mesmo a esquecer que tivesse um. Mas naquela voz, no meio da madrugada, lhe soou como música.) Eu soltei um palavrão, disse que aquilo não era hora de estar passando trote em ninguém e já ia desligando o telefone, quando uma outra voz feminina, ainda mais sexy que a primeira, me impediu: "Temos uma mensagem da maior importância para você."



Naquele instante, meu telefone começou a projetar uma imagem, como se fosse uma televisão em 3D, e eu pude então ver as duas mulheres que conversavam comigo. Imagina a Sophia Loren e a Marilyn ligando pra você no meio da madrugada. Imaginou?! Passou longe: elas dão de dez a zero. Foi aí que eu tive a certeza de que não era um trote.



Noronha contou detalhadamente a conversa que tivera com as duas estranhas interlocutoras, que estavam a bordo de uma espaçonave intergaláctica cujo nome ele não conseguira entender, de como elas o conduziram por um tour pela nave, onde só se viam mulheres dos mais variados tipos, todas aparentando idade entre os vinte e trinta anos e dignas de fazer inveja a um desfile da Victoria's Secret.



Ao fim do tour, a que parecia ser a comandante da nave lhe confidenciou o motivo da inusitada comunicação:



- Nosso planeta sofreu uma terrível catástrofe, com a disseminação de um vírus letal que dizimou todos os espécimes masculinos de nossa raça. Tentamos por vários anos desenvolver métodos assexuados de reprodução, com os quais pudéssemos assegurar a continuidade de nossa espécie, mas sem sucesso. Após uma extensa busca por vários quadrantes do universo, nossas cientistas chegaram à conclusão que apenas os homens da Terra portariam características compatíveis com as nossas, para que obtivéssemos êxito em nossa empreitada reprodutiva. E, analisando os códigos genéticos dos homens de sua espécie, constatamos que VOCÊ seria a pessoa mais indicada para liderar essa importante jornada de repovoamento de nosso planeta. É por isso que viemos, em nome de todas as sironianas, rogar que se junte a nós, em nome da salvação da nossa espécie. E como somos milhões, ávidas pela oportunidade de nos reproduzirmos, sugerimos que reúna, entre aqueles que achar mais aptos à tarefa, doze espécimes masculinos do seu planeta, para que façam parte de sua equipe.



Noronha, com os olhos repletos de lágrimas e a gola do pijama empapada em baba, não conseguia articular palavra. Apenas assentia com a cabeça repetidamente, como hipnotizado pela inusitada proposta. Ou pelos magníficos seios da Marilyn que lhe falava.



- Aceitaremos seu silêncio como consentimento. Existem, porém, alguns riscos que essa operação pode acarretar, e é nosso dever informar-lhe. Nossa espaçonave emite uma grande quantidade de radiação, e não estamos bem certas do que isso pode acarretar ao seu planeta. Na pior das hipóteses, uma reação em cadeia com o nitrogênio presente em sua atmosfera pode desencadear um cataclismo de proporções jamais vistas, capaz de aniquilar completamente a vida na Terra. Precisamos saber se, mesmo ciente de tais riscos, você estaria disposto a colaborar conosco.



Ele permanecia com os olhos vidrados, balançando a cabeça afirmativamente.



A comandante Marilyn deu um gritinho de contentamento, seguido de um largo sorriso e lhe informou que ele, juntamente com os doze escolhidos, deveriam estar reunidos dentro de quatro dias, naquele mesmo horário, a uma altitude de 24 metros do nível do mar, formando um círculo, de mãos dadas. Sem bagagem. Elas cuidariam de tudo.



A vontade do Sandoval, ao ouvir aquele monte de sandices, era atirar o Noronha pela janela do sétimo andar, onde estavam. Mas ele sabia que algo sério acontecera. O Noronha, por mais que ele soubesse não ser muito certo da cabeça, não era de fazer brincadeiras daquele tipo ou qualquer outro. Era meio doido, mas sério. Por via das dúvidas, deu-lhe um bilhete e mandou que o entregasse ao Dr. Souza ainda naquela manhã.



Horas depois o Noronha mete a cara pela porta, visivelmente mais calmo e composto.



- E então?! Como foi a conversa com o Dr. Souza?



- Ele topou! – e dá um sorriso triunfal. – Agora só faltam onze.



Em poucos minutos estava ao telefone com o psiquiatra. Conseguiu fazer com que a secretária interrompesse a sessão com um dependente químico em tratamento, pois era um dos pacientes mais antigos (e ricos) e estava em uma emergência. Doutor Souza foi paciente e didático ao telefone, ao explicar a sua decisão:



- Meu caro Miranda, passei seu cunhado por todos os crivos conhecidos na moderna Psiquiatria e posso lhe assegurar que mentindo ele não estava. O que ele me narrou foi uma experiência verdadeira. É difícil precisar se a mesma partiu de seu consciente ou inconsciente, mas achei sensato conceder-lhe o benefício da dúvida. E como ele foi extremamente amável ao me convidar para fazer parte da sua importante missão, achei que seria de muito mau gosto recusar.



- Eu não acredito que você tenha embarcado com ele nesse delírio. Francamente!...



- Ora, Miranda! Reflita comigo: caso a teoria dele esteja correta, em quatro dias a vida em nosso planeta estará aniquilada. Aceitar o convite seria a única maneira de sobreviver a essa iminente catástrofe.



- Mas, e se isso for apenas um delírio da mente daquele louco?



- Nesse caso, podemos contar com um "depois" pra resolver isso. Pense bem. Você foi a primeira pessoa que ele procurou para fazer parte da missão. E ao rechaçá-lo, ele entendeu como uma recusa. Eu sugiro que o procure e desfaça esse mal entendido. A propósito, foi bom você ligar: estou cancelando a sua consulta desta semana. Vamos nos ver em quatro dias, mesmo…



E desligou.



Parecia loucura. Mas fazia sentido. Chamou Noronha à sua sala e tentou agir com naturalidade:



- E então, meu caro?! Quantos já somos até o momento?



- Quer dizer que você resolveu aceitar o meu convite?



- Sei não, cunhado. Ainda estou achando isso tudo muito esquisito. Mas conversei com o Dr. Souza e ele foi bastante convincente. Mas preciso te fazer uma pergunta da maior importância, antes de tomar essa decisão.



- Manda!



- Nesse seu tour pela nave você viu alguma Pamela Anderson?



- Deixa ver… sim, me lembro de ter visto pelo menos uma. Na enfermaria.



- Estava doente?



- Não! Estava aferindo a pressão da Angelina.



- Uuuuuiii!!! Me deu até uma pontada no coração. Meu caro, Síron precisa de nós. Estou contigo nessa missão.



Os dias que se seguiram foram permeados de cochichos, piscadelas e reuniões em segredo. O time estava formado e altamente motivado. O sigilo era absoluto, para que não se espalhasse um pânico desnecessário entre as esposas e os familiares. Afinal de contas, havia a chance de o nosso nitrogênio resistir à radiação da nave.



No dia e hora aprazados, os doze encontraram-se no terraço do edifício Lopes Miranda, sede da imobiliária. Resolveram que o porteiro deveria estar entre eles, para, no caso de o planeta sobreviver à aproximação da nave, não correrem o risco de deixar testemunhas que pudessem levar a pistas plausíveis. Todos sabiam do que as mulheres eram capazes.



Cumprimentaram-se discretamente, com um discreto sorriso no rosto e aquele brilho nos olhos, como crianças em torno da árvore de Natal.



Despiram-se em silêncio, amontoando as roupas ao pé da caixa d'água, e foram se reunindo no centro do terraço, formando um grande círculo, de mãos dadas, no meio do qual estava o celular do Noronha.



Ele tinha os olhos úmidos, novamente. Estava convencido de que o momento era o mais importante de sua vida. Mas não conseguia pensar em nada que pudesse improvisar para um breve discurso, então começou a repetir, como se entoasse um mantra: "Síron, Síron", no que foi imediatamente acompanhado pelos colegas.



Os minutos que se passaram pareceram uma eternidade. A cantilena foi aumentando gradualmente, até que todos suspenderam a respiração, quando perceberam que um ruído ensurdecedor, seguido de uma ofuscante luz e uma ventania que quase os desequilibrava foi se aproximando do terraço. Era o êxtase. Noronha sentia como se levitasse. Não cabia em si de contentamento. Desde criança sempre tivera a certeza plena de que seus talentos suplantariam os limites deste nosso pequeno planeta.



Foram instantes de júbilo extremo, interrompido apenas quando a voz chegou aos seus ouvidos:



- Aqui é a polícia. Vocês estão cercados. Fiquem onde estão.



Quase podiam tocar o helicóptero, que só não aterrissava porque o terraço era pequeno demais. Nesse instante a porta do terraço se abria e dezenas de policiais, liderados por Dona Gracinha e Mirthes Miranda, cercavam o perímetro.



Ninguém tentou fugir. Os integrantes do círculo apenas baixaram a cabeças, derrotados, e soltaram-se as mãos, para que pudessem cobrir as desguarnecidas partes baixas.



Por sorte conseguiram ser ouvidos pelo comandante sem a presença das mulheres. Pensariam depois no que diriam a elas. Mas era muito mais confortável explicar a um homem o que estavam fazendo ali, àquela hora, e naquelas condições.



O tenente quase chorou, ao ver a expressão de desolamento naqueles homens de meia idade. Mas manteve-se firme e repreendeu a cada um verbalmente de forma dura. Decidiu que não eram merecedores de inquérito, processo, nada dessas formalidades penais. A justiça andava ocupada demais com casos muito mais graves. E cada um já recebera um castigo muito mais grave do que merecia. Isso sem contar o que lhes esperava em casa.



O sol nasceu mais uma vez, para seis bilhões de pessoas em nosso pequenino planeta.



Às oito em ponto, Sandoval Miranda descia do elevador, rumo à sua sala, cumprimentando Dona Soraia com um sonoro "bom dia" de barítono. O porteiro estava impecável, disfarçando o sono, recebendo os funcionários e visitantes. Dr. Souza atendia seus pacientes em seu consultório. E todos os demais tocavam em silêncio suas vidas, decididos a jamais tocarem no assunto novamente.



Com exceção do Noronha, que arrumava as malas para assumir a gerência da filial de Botucatu.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

PIMENTA NO OUVIDO DOS OUTROS



- Sabe uma coisa que me irrita?


Ele não estava muito interessado em saber. O segundo caderno do jornal de 3 dias atrás, que ele finalmente conseguira se sentar para ler, lhe parecia muito mais proveitoso do que o assunto que ela acabava de puxar. Mas sabia que não haverá como escapar do assunto, então emitiu um quase inaudível "hum?" para que ela prosseguisse.


- Essa gente que fica falando mal dos outros pelas costas. Acho um absurdo! Na frente é só sorrisos, gentilezas, maior falsidade. Aí é só a pessoa virar as costas que começa a criticar.


- É verdade…


- Hoje cedo eu estava saindo da academia com a Waldete e a Irene. Paramos pra tomar um suco na padaria e a Irene teve que sair, dizendo que estava atrasada pra uma consulta. Foi ela colocar o pé fora da padaria e a Waldete começar a meter o pau, dizendo que teria vergonha de sair com aquela roupa de ginástica na rua, se tivesse o tanto de celulite que a Irene tem. Que também, com aquele marido galinha que ela tem, só mesmo se exibindo por aí, pra ver se arruma um garotão. Que o marido, além de galinha, anda envolvido com uma série de denúncias na Assembleia Legislativa. E não parou de criticar a coitada da Irene enquanto eu não a deixei na porta do prédio.


- É um absurdo, isso…


- Imagina só! Justo a Waldete, que está tentando perder seis quilos (isso é o que ela diz, porque, pra mim, teria que ser no mínimo o dobro) desde março. Vive por aí, torrando a fortuna de pensão que recebe do ex-marido, cada dia com um garotão diferente. E o que é pior: despachou a mãe prum asilo, que ela enche a boca pra chamar de clínica, só pra poder receber homem em casa. Francamente! Isso me irrita!


Ele tirou os olhos do jornal. Olhou-a por cima dos óculos.


- E você, por acaso, está fazendo o quê, agora, Dulce?


- Eu?! Apenas comentando.

LEITURA IMPRÓPRIA



… E viveram felizes para sempre!


Fechou o livro quase sem ruído, para não acordar a menina sob o edredom. Ergueu-se lentamente e quando estava já com o pé pronto para o ante pé, ouviu a voz muito acordada que quase lhe assustou:


- Mamãe!


Olhou para a filha com aquela cara de desespero de quem pergunta "essa menina não vai dormir?!". Seus olhinhos a fitavam acelerados, como os de quem está no meio de uma vertiginosa tempestade cerebral. Respirou fundo.


- O que é, meu amor? Achei que você estivesse dormindo…


- Existe príncipe?


-Sim, meu amor! É claro que existe. Quando o rei e a rainha têm um filho, esse filho é um príncipe. – não dava pra explicar detalhadamente pra filha de seis anos como funcionava a monarquia, reis, rainhas, príncipes, princesas e tudo isso. Mesmo porque não entendia muito bem dessas coisas.


- E sapo, existe?!


- Sim, minha filha. Sapo existe. – Dez e meia da noite, o programa favorito de TV já está pela metade. A paciência começa a minguar, mas é preciso manter a calma.


- E o papai é um príncipe ou é um sapo?


A mãe revira os olhos, senta-se na beira da cama, conta até trinta, pensando cuidadosamente no que vai dizer. Suspira. De nada adiantara fingir que não estava entendendo aonde aquela conversa ia dar.


- O papai é uma pessoa comum, filha. Não é um personagem de contos de fadas. – e enumerou algumas das características básicas que comporiam uma "pessoa comum", que fossem acessíveis a uma menina de seis anos de idade muito espertinha, embora por dentro estivesse morrendo de vontade de dizer que o papai era muito pior que um sapo; que mais parecia um dragão, principalmente quando voltava pra casa depois de uma dose a mais de vodca, o que vinha acontecendo com demasiada freqüência antes da separação.


A filha ia fazendo que sim com a cabeça, como se estivesse entendendo tudo. Mas a mãe tinha certeza de que ela estava mesmo era preparando a próxima pergunta.


- E você, mamãe?


- Eu o quê, filha?!


- Você é uma princesa?


A mãe quase engasga, ao tentar conter uma gargalhada que soaria muito mais como a de uma bruxa, mas se contém e responde de maneira didática, enquanto afaga as madeixas da menina que agora está sentada na cama, que também ela, a mamãe, é uma pessoa comum, enumerando algumas características (mais bem escolhidas dessa vez) das pessoas comuns.


- Então eu não estou entendendo nada!


- O que você não está entendendo, minha filha?


- Se você é uma pessoa comum e o papai também, por que é que vocês não foram felizes para sempre?


Foi difícil segurar a vontade de dar um grito e sair correndo do quarto. Apenas uma lágrima furtiva minou do olho esquerdo, que ela disfarçou com maestria. Não dava pra explicar pra uma menina de seis anos o que falhara em sua vida conjugal. Mesmo porque não entendia muito bem dessas coisas.


Apenas sorriu amarelo, levantou-lhe a franja e beijou-lhe a testa e disse:


- Hora de dormir, princesinha! Boa noite!


E saiu do quarto.


Na noite seguinte, por via das dúvidas, colocaria um DVD do Pokémon pra menina dormir.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

ARROUBOS MUSICAIS - BELCHIOR - ALUCINAÇÃO



É claro que este é do tempo do vinil, garimpado com muito suor nos nichos empoeirados da Natu Discos.


Eu tinha uma coleção de DISCOS (era assim que a gente chamava) da qual me orgulhava muito e cuidava com muito zelo. E é claro que só tinha coisa boa, mas isso é muito relativo e não vamos entrar no mérito dessa questão.


Lá pros idos de antes de 1990, um cover do Belchior (naquela época ainda não se chamava cover, mas eu não me lembro o nome que tinha) veio a Cachoeiro fazer um show num barzinho cujo nome também não me recordo. O local era bem grande e, fora a nossa turma, havia mais umas duas mesas ocupadas, no máximo.


O cantor era bom. Tinha até bigode…


Quando enfim resolve dar aquela estratégica paradinha pro xixi, não perdi tempo: pulei no palco e empunhei o violão do artista da noite para dar uma canja, como quem agarra a espada conquistada a um inimigo feroz. Sentei-me no banquinho, falei alguma bobagem no microfone e arrisquei um sol maior…


Nada…


Dó maior.


Nada…


Sorriso amarelo na cara, olho pra platéia e vejo o cantor se dobrando de rir.


Só então me dei conta de que o infeliz era canhoto e que as cordas do violão estavam todas invertidas.


Fazer o quê, né?!


"A minha alucinação é suportar o dia-a-dia / E meu delírio é a experiência com coisas reais."

ARROUBOS MUSICAIS - FATOS

Salve, blogosfera!

Há algum tempo vimos adicionando algumas pérolas de nosso acervo musical, como forma de compartilhar com os amigos e visitantes algo que é tão belo e sublime.

A coleção vem aumentando aos pouquinhos.

É claro que cada música tem uma história. E é claro que com história tudo fica muito mais gostoso.

Por isso, a partir de hoje contaremos um pouquinho da história que levou cada uma dessas pérolas a fazer parte de nossa coleção.

Seja bem vindo!

Sinta-se em casa!

E divirta-se!