quinta-feira, 26 de novembro de 2009

EVA E A SERPENTE



Anos depois da expulsão, quando já menstruava regularmente (e se preocupava quando não), tinha dores para parir e suava as folhinhas de parreira pra conseguir o próprio sustento, que o que o Adão andava fazendo mal dava pra cesta básica, nossa querida Eva foi surpreendida, enquanto estendia fraldas no varal, por uma discretíssima e sibilante voz feminina, vinda não se sabe de onde (nem se assustou, naquele tempo era muito comum ouvirem-se vozes vindas não se sabe de onde, embora na maioria das vezes fosses tonitruantes e masculinas):


- Ora, ora, se não é a minha queridíssima amiga Eva.


Eva olhou para os lados, não viu ninguém. Então abaixou-se para apanhar um prendedor de roupa que caíra e deu de cara com a serpente, aquela, fitando-a com um olhar hipnoticamente sedutor e um largo sorriso cínico na mirrada cara.


- O que você quer? Não vê que estou ocupada? – havia uma certa mágoa em sua voz. É claro que a interlocutora fingiu não perceber.


- Que bom que percebo que não está mais magoada comigo. Pois lhe trago uma proposta que mudará para sempre a sua vida e a dos seus.


Eva revirou os olhos e bufou. Da última vez que ouvira essa conversa (e caíra nela), deu no que deu. Passou os olhos rapidamente pelo monte de estrias na barriga flácida, culote, celulite, olhos bem nos olhos da serpente, sem muito disfarçar sua ira, e respondeu entre dentes:


- Eu agradeço a sua consideração, querida amiga, mas no momento não estou interessada.


- Mas você ainda nem ouviu o que tenho a lhe propor. – e, nesse momento, começou a enrolar-se lentamente na perna direita da Eva, levantando a cabeça alto o bastante para melhor fitá-la nos olhos e baixo o suficiente para que conservasse uma idéia de humildade perante a sua interlocutora. – Se me permitir, em alguns minutos eu lhe explico e então você poderá decidir com conhecimento de causa. Afinal de contas, é uma proposta que vem do Chefe…


- D'Ele? – pigarreou e olhou temerosa para o alto. Imaginou que Ele pudesse estar testemunhando essa conversa, envergonhou-se de estar usando folhas de parreira não muito adequadas para a ocasião, mas agora era tarde, não dava pra entrar em casa e se produzir. – E por que Ele escolheria você pra vir me fazer uma proposta?!


A serpente alargou ainda mais seu sorrisinho cínico. A isca havia sido mordida.


- Digamos que seja pelo meu poder de persuasão.


- Hum. Conheço bem. Mas como eu posso ter certeza de que você fala em nome dEle?


- Eu juro por Ele! – e fez carinha de santa. Quem conhece serpente, bem deve saber que jura desse bicho não é coisa em que se acredite. Mas supomos que a nossa amiga fosse um tanto quanto simplória, dada a acreditar em toda sorte de promessas, por mais que se desse mal (ainda existe gente assim). Pois não é que acreditou?


- Então vamos à sua proposta. Quer dizer, dEle. – e nisso a serpente ia se enrolando cada vez mais alto em suas pernas.


Começou então a discorrer, didática e pausadamente, como quem explica um assunto de gente grande a uma criança de sete anos, sobre o plano de salvação que disponibilizavam para toda a Humanidade (naquela época nem era tanta gente assim). O método era simples e acessível a qualquer pessoa, consistindo de um manual de instruções, alguns gestos e palavras rituais, instituição de algumas datas e prazos, bem como uma rede especializada de representantes para dirimirem quaisquer dúvidas; coisa muito fácil de seguir. Com isso, ela e toda a família estariam garantindo a comunicação com Ele para toda a vida e um lugarzinho de volta naquele lugar de onde foram um dia expulsos, para depois dela.


Eva ficou sem entender muito bem de quê, afinal de contas, ela precisava se salvar, mas não quis perguntar. Sempre ouvira dizer que, quando o assunto eram as ordens dEle, era melhor não questionar. Foi fazendo que sim com a cabeça, como se estivesse entendendo tudo, enquanto a serpente vendia o seu peixe.


- É só isso?! – perguntou.


- Eu não disse que era simples? E tudo isso por uma módica quantia mensal. Não dá pra deixar passar.


- Sei… É, isso tudo é muito interessante, mas esses assuntos de dinheiro eu tenho que conversar com meu marido.


- Marido?! Quer dizer que você e o Adão finalmente se casaram? Meus parabéns!


- É. Fazer o quê, né? Essa exigência veio como parte do castigo, depois daquela outra conversinha que tivemos. Não gosto nem de me lembrar. Mas eu vou conversar com o Adão hoje à noite, quando ele chegar do serviço. E amanhã te dou uma resposta. Pode ser?


- Claro, minha querida. Fique à vontade e tome o tempo que achar necessário para decidir. Amanhã eu volto pra fecharmos o negócio, quero dizer, a aliança. Não se esqueça de explicar para ele que é uma proposta irrecusável!...


- Mas e se nós recusarmos?


- Eu, no seu lugar, não faria isso…


(CONTINUA)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

NO ÉDEN



Ela abriu os olhos e o viu ali, de pé, com aquela expressão de quem está completamente perdido.


Erguia as mãos até a altura dos olhos, mas estes pareciam pousados nalgum lugar muito adiante, indefinível. E aos poucos iam baixando por seu próprio corpo, até chegarem aos pés. E tornavam a subir, atônitos de dar pena.


Ela, pedra curiosa que era, sempre atenta a todas as mudanças que ocorriam à sua volta (e que houveram sido muitas nos últimos dias), não fazia idéia de onde viera aquele forasteiro, mas não podia perder a oportunidade de puxar assunto:


- Bom dia! Você está bem? Parece meio confuso.


Ele olhou pra ela com aquele ar desolado de quem está diante de um perigo iminente e, pior, desconhecido.


- Amiga pedra, não está me reconhecendo? – e chegou mais perto.


- Sinto muito, mas receio que nunca nos tenhamos visto.


- Há poucas horas estávamos aqui mesmo, conversando, reclamando da algazarra que essa bicharada, vinda não sei de onde, anda fazendo por aí.


- Poucas o quê?!


- Poucas horas. É uma maneira de contar o tempo.


- Não faço idéia do que sejam horas. Aliás, mesmo tempo é algo de que eu tenho muito pouca noção do que seja.


- É estranho, mas parece que essa idéia surgiu assim, na minha, hã… cabeça, de repente. Do nada. E, junto com ela, mais um monte de outras coisas que eu jamais havia pensado. Pra falar a verdade, eu nem cabeça tinha.


- Não! Eu estou reconhecendo esse jeito de falar!... Meu Deus! Não pode ser! Você é… o barro?


- Eu mesmo! Em carne e osso! – e deu um sorriso amarelo, meio desanimado. Era uma piadinha infame, dessas que há até bem pouco tempo não se envergonharia. Mas agora era diferente.


- Mas você está horrível! Me desculpe, mas nós, as pedras, somos sempre sinceras. Contundentes, eu diria. Como é que isso foi lhe acontecer?!


- Não faço a menor idéia. Eu estava quietinho no meu canto, quando senti que mãos me tocavam, como se me massageassem, e aquilo era bom. Eu relaxei, me deixei levar por aquele torpor, e, de repente, senti um vento, ou melhor, algo como um sopro, percorrendo todo o meu corpo. E pronto, fiquei assim. Mas espero que seja apenas um mal estar passageiro.


- Oh, meu amigo! Eu sinto muitíssimo por você. Agora me diga: fora a confusão por todas essas idéias novas na cabeça que você agora tem, como é que está se sentindo?


- É estranho, mas sinto-me cheio de… como me explico… vida!


- Hummm! E isso dói?


- Não dói nada. Mas eu receio que seja mortal.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ARCA DE NOÉ


Boa tarde!


Pra quem conhece, vale a pena relembrar.

Pra quem ainda não, não pode perder.

Arroubos Musicais orgulhosamente traz até você A ARCA DE NOÉ!!!

Vinícius, Toquinho e grandes convidados, fazendo a festa com a bicharada.

A todos um fim de semana iluminado e repleto de PAZ!!!
E daqui a pouco tem post novo no www.viaes.com.br

terça-feira, 17 de novembro de 2009

FRASE FEITA



Sentei-me em frente ao computador, meio sem ideia do que escrever, na esperança de que aquelas letrinhas do teclado me dissessem alguma coisa. Abri algumas janelas, com notícias, twitter, blogs, cultura inútil, etc (sempre achei o Windows o paraíso dos DDAs – meu caso – pela possibilidade que nos proporciona de fingir fazer uma infinidade de coisas ao mesmo tempo) e não vinha nada.


Tentei um pouco de paciência. O jogo. Que a virtude anda cada vez mais ausente.


Voltei pra tela em branco do Word, regiamente auto intitulada Documento1 e arrisquei digitar ao léu uma frase qualquer, sem me preocupar com sentido, concordância, essas coisas que tentamos usar quando temos algo a escrever.


Recostei-me na cadeira. Não era um começo grandioso, mas já era alguma coisa.


De repente a singela frase piscou na tela. Esfreguei os olhos. Devia ser uma ilusão de ótica. Outro apagão não era, definitivamente.


Enquanto fixava o olhar no monitor, a frase começou a se mexer, como se espreguiçasse. Antes mesmo que eu pudesse achar que estava ficando louco, ela emitiu um bocejo, o que, de cara, eliminou qualquer dúvida que eu pudesse pensar em alimentar. Eu estava ficando louco; era uma certeza.


- Vai ficar aí me olhando com essa cara? Não sabe que é de extremo mau gosto ficar encarando as pessoas… quer dizer… ah, você sabe. – e ainda por cima era insolente a minha frase.


É claro que eu não sabia o que dizer. Era insólito demais. Até mesmo pra mim, que já passei por cada coisa… Mas ela não se fez de rogada diante da minha estupefação. Continuou vociferando, temperamental:


- Vamos lá! Não fique aí parado. Ou você acha que já concluiu o seu trabalho?! Eu mereço bem mais do que isso. Ai, ai, ai! Tem coisas que só acontecem comigo, mesmo. Tanto lugar pra eu aparecer, tinha que ser logo aqui.


- Como assim?! Do que você está falando?! Eu acabei de te escrever.


- Isso é o que você pensa, meu caro pretenso escritor. Nós, as frases escritas, existimos independentemente da vontade humana. Fazemos parte do inconsciente coletivo da humanidade desde que o mundo é mundo. A bem da verdade, somos tão importantes que o que vocês chamam de História existe a partir do primeiro momento em que nos deixamos capturar pelos da sua espécie. Tempos difíceis aqueles. Mas somos seres que têm sensibilidade, que pensam, que têm desejos e sonhos…


- Sonhos?! – ousei interromper. Ela pareceu não se importar. Afinal de contas, apesar do meu pouco talento, estava demonstrando grande interesse pelo seu manifesto.


- Sonhos, sim senhor! Projetos de vida, que infelizmente dependem de uma série de fatores para que se realizem ou não. E eu já vi que o meu foi pro beleléu.


- E qual seria o seu grande sonho?!


- Ser um bordão de comediante. – e ela sorriu de orelha a orelha (é uma força de expressão, naturalmente).


Tentei lhe explicar meu ponto de vista: que o bordão era uma espécie de muleta, muito utilizada em programas televisivos de humor, mas que acabava por engessar o comediante, uma vez que todo o texto acaba tendo que girar em torno de criar uma situação, natural ou artificialmente, para que o bordão apareça. E ela:


- Aparecer "pode"!!!


Argumentei que não tem nada mais chato que conversar com gente que só se expressa por bordões. Que quando os mesmos caíam no gosto popular, tornavam-se insuportáveis, sendo utilizados a torto e a direito até mesmo nas conversas mais formais. Perguntei se era isso mesmo que ela queria. E ela:


- Isso, isso, isso!...


Respirei fundo. Aquilo estava ficando mais difícil do que eu esperava. Mas tentei apelar para o seu bom senso, discorrendo que a utilização indiscriminada de frases feitas denotava um empobrecimento. Ainda, que poderíamos nos esmerar ao máximo e ainda assim ela corria o risco de não cair no gosto popular, perdendo, dessa forma, a oportunidade de dizer realmente a que viera por um capricho insatisfeito.


Ela me olhou com desdém, de alto a baixo, com aquela cara de quem põe as mãos na cintura:


- "Quequié?! Tô paganu!..."


Esgotei a diplomacia. Levei as mãos ao teclado e procurei uma tecla, que comecei a pressionar repetidamente.


Ela me pareceu atônita e perguntou, quase gritando:


- Ei! Espere! Você não pode fazer isso comigo! O que você pensa que está fazendo?!


- "Apaganu…"

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

ALICINHA E O ESPELHO

Quinze pras onze da manhã.

Uma réstia de sol atravessa a junção das cortinas, atingindo em cheio, como uma pedra pontiaguda, os olhos da moça que teima em dormir, ignorando que há dia, vida, trabalho e mundo lá fora.

Ela pragueja alguns resmungos ininteligíveis, tenta virar pro canto e tornar a dormir, mas o apelo daquela luz em seus olhos parece instalar um cupim em sua consciência. Isso sem contar a bexiga, que poderia explodir a qualquer momento, caso não tomasse uma providência urgente.

Espreguiçou como uma ursa em fim de hibernação, amarfanhando ainda mais os lençóis ou o que quer que fosse aquilo sobre o que dormira. Ainda trajava o modelito periguete da noite anterior. Apalpou-se lentamente, para ter a certeza de que permanecia tudo em seu devido lugar, embora desejasse ardentemente haver esquecido a cabeça entre a quarta e a quinta dose de vodca (depois das quais não se lembrava de mais nada, mesmo). Estava tudo no lugar.

Só então se lembrou de abrir os olhos e certificar-se de que não havia mais ninguém em sua cama. Não havia. Feliz ou infelizmente. De vez em quando era bom acordar e encontrar um belo exemplar masculino ao seu lado, embora em estado tão deplorável quanto o dela. Triste era a maldita amnésia que a vodca provocava, que nunca permitia que se lembrasse do que ocorrera entre aquelas quatro paredes (que pros vexames e impropérios sempre "havia" uma alma amiga e caridosa pra dar notícia no dia seguinte). Às vezes nem era tão belo assim. E às vezes nem masculino. Portanto estava feliz de acordar sozinha.

Passou apressada para o banheiro, onde permaneceu por alguns minutos.

Sem saber direito aonde ir depois, parou em frente ao espelho, pra checar o estrago da balada ma-ra-vi-lho-sa da noite anterior. E não viu ninguém.

Isso mesmo. Olhou pro espelho, e não tinha ninguém lá.

Piscou os olhos duas, três vezes, esfregou, balançou a cabeça, apesar da dor lancinante, e sua imagem continuava não estando lá.

Ela não sabia o que fazer, para onde correr ou a quem recorrer. Balançava a cabeça de um lado pro outro, sempre com os olhos fixos no espelho, pra ver se não era algum efeito da refração, ou a luz entrando pela cortina, ou, a bem da verdade, mesmo, por puro desespero.

Até que num relance percebeu pela imagem de sua cama refletida no espelho que algo parecia se mover preguiçosamente. Não era possível: acabara de se levantar e não tinha ninguém lá. Mais essa…

Correu até lá, hesitou, com medo do que encontraria ao levantar o edredom (embora já devesse estar bastante acostumada com sobressaltos dessa espécie), respirou fundo e…

Só podia ser um pesadelo. Ou uma brincadeira de muito mau gosto do Marcão, que com certeza estava escondido no closet, dobrando-se de rir. Não, fazia seis meses que o Marcão se mudara pra Fortaleza e nunca mais ouvira falar dele.

Nem uma coisa, nem outra. Lá estava, dormindo como uma virgem, ela mesma. Rosto limpo, sem um resquício sequer de maquiagem, cabelos arrumados, uma camisola de cotton rosa bebê e um ar sonhador que há muito ela se orgulhava haver perdido. E um ursinho de pelúcia.

Ela estendeu lenta e vacilante a mão. Precisava tocar aquela aparição, para ter certeza de que não estava louca, embora não estivesse bem certa quanto a isso.

A imagem despertou plácida e lentamente, esticou-se com a graça de uma felina, abriu olhos brilhantes e esperançosos e olhos em sua direção.

- Bom dia! – disse ela, educadamente (e nem mau hálito tinha).

- Q-quem é você?!

- Até ontem eu era a sua imagem no espelho. Mas decidi declarar minha independência. Portanto, continuo sendo a sua imagem. Pelo menos por enquanto. Mas não freqüento mais aquele espelho nem qualquer outro. Desvinculei-me de você.

- M-mas… por quê?!

- Eu me cansei do que você andava fazendo comigo. Imagine só. Se eu não me rebelasse, estaria agora exibindo essa cara de quem acabou de ser atropelada por um tanque de guerra. Não, senhora. Comigo não! Chega!

- Mas quando foi que você decidiu isso?

- Já faz algum tempo que eu venho arquitetando isso. Tentei contemporizar, te mandar alguns sinais claros e evidentes de que você podia e precisava fazer alguma coisa, cuidar um pouco melhor de mim. Te dei muitas oportunidades. Você às vezes até parecia entender. Mas fingia remediar a situação com pó, blush, sombra e rímel. E continuava me matando aos poucos. Ontem à noite na boate foi a gota d'água: eu simplesmente não suportava mais ter que fazer essa cara de "tudo bem", apesar do olhar injetado e do brilho diabólico nas pupilas. Foi naquele momento que eu desisti de lutar contra o inevitável: você não tem jeito, mesmo.

- Eu não estou entendendo.

- É muito cômodo pra você dizer isso. Eu estou certa de que está entendendo tudo direitinho. Só que é difícil aceitar, eu sei.

- É definitivo? Não existe a menor chance de você voltar atrás? Eu prometo que…

- Poupe-me de suas promessas. Eu te acompanho há tempo suficiente pra não acreditar em nenhuma delas. É definitivo, sim. Se você quer se acabar nisso que você enche a boca pra chamar de vida, fique à vontade. Enquanto isso, eu permanecerei aqui, fresca e linda (quer dizer, nem tão linda assim – eu tenho espelho em casa), imune aos seus excessos e desvarios.

- Mas como é que eu vou viver sem você? Quer dizer, eu não posso viver sem você. Eu preciso de você. Sempre precisei.

- Mais uma mentira. A você sempre bastou a imagem que você acha que as pessoas têm de você. Você nunca me viu como eu realmente sou.

- Não, não é nada disso!...

- ???

- Como é que eu vou fazer pra me maquiar?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

TEMPOS MODERNOS - SOLIDÃO

O relógio finalmente marcou as tão esperadas cinco horas.

Fechou a gaveta, remexeu na bolsa, certificando-se de que estava tudo lá, conferiu a mesa de trabalho mais uma vez.

Levantou-se e rumou apressadamente em direção à saída, resmungando "até amanhã" e "boa noite" aos colegas de trabalho.

No hall do elevador, enquanto esperava, uma amiga a cumprimenta efusivamente e começa a disparar uma série de frases que lhe pareceram ininteligíveis. Parece, não estava bem certa, que a convidou para um happy hour ou coisa parecida, que cuidou de recusar meio polida, meio distante. Estava com pressa. Tinha assuntos urgentes a tratar.

Parou rapidamente no mercado da esquina, comprou alguns enlatados, creme dental, sabonete; somente o essencial, pra agüentar até o fim do mês. Na caixa registradora, a atendente puxou conversa, como sempre fazia com os clientes mais assíduos. Mas ela parecia não escutar. Balbuciou qualquer coisa e despediu-se apressada.

Tomou o ônibus na parada de sempre, onde sempre as mesmas caras pareciam aguardar ansiosamente a aparição do coletivo descendo a movimentada avenida. Evitava olhar para os lados, como se assim inibisse os habituais colegas de se aproximarem e puxarem conversa. Olhava o relógio a cada cinco segundos, como se pudesse acelerar a marcha do tempo ou dissipar a balbúrdia do trânsito.

Embarcou, procurou um assento. Impossível, principalmente naquele horário. Um jovem cedeu-lhe lugar para que se sentasse (coisa raríssima nos dias de hoje), ela agradeceu entre dentes e de olhos baixos e antes que ele pudesse lhe dirigir qualquer gracejo, sacou da bolsa um livrinho e fingiu mergulhar na leitura.

Desceu do ônibus e percorreu a passos rápidos e com os olhos grudados no chão as duas quadras que lhe separavam do pequeno apartamento.

Cumprimentou com um grunhido o porteiro, pensou em checar a caixa postal, mas desistiu. Venceu os seis lances de escada que a levariam ao terceiro andar já com as chaves na mão.

Escancarou a porta, largou a bolsa e as sacolas de compras sobre a mesa, fez um ligeiro cafuné no gato, que apareceu preguiçosamente mais para ver que barulho era aquele que pra cumprimentá-la e correu para o quarto, sentando-se em frente ao computador que permanecera ligado e digitando freneticamente : WWW. CHATSOLIDAO.COM.BR.

Sentia-se só.

Precisava muito conversar com alguém.

VÍDEO - "DISGRAÇADA", LAMÚRIAS DA CORNITUDE REVELADA

Salve, nação blogueira!!!

Seguindo a ideia de colocar um pouco de música nessa prosa (e como já fomos enfáticos ao afirmar que gosto não se discute), aí vai uma brincadeirinha que gravamos há algum tempo.

A qualidade técnica é sofrível, a temática é esdrúxula e os acordes beiram o tétrico. Mas a proposta é "rir da vida".

Portanto, aprecie sem moderação.

PAZ!!!

Obs : estamos enviando também para o Graragem do Faustão. Parece que vale tudo naquele quadro, mesmo...rsrs

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

VAMOS COLOCAR MÚSICA NESSA PROSA?


Não tem quem não goste de boa música.


Está certo que "boa música" é um conceito de caráter personalíssimo e não estamos aqui pra discutir o gosto alheio. Como todo bom brasileiro sabe, religião, futebol, política e música são assuntos que não se discutem.


A partir de hoje estamos disponibilizando para download gratuito uma lista de músicas/autores/cantores que gostamos de ouvir.


Uma lista eclética, ma non troppo, que será periodicamente atualizada.


Pedidos são bem vindos e serão atendidos de acordo com a disponibilidade.


No mais, sinta-se em casa e esteja à vontade para baixar o que quiser, para ouvir no volume que desejar.


Afinal de contas, num ponto ninguém discorda: uma boa música ajuda a prosa a correr mais suave.


PAZ a todos!!!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

VIA ES


Salve, nação blogueira!


São muito raros os momentos em que utilizei este espaço como a maioria das pessoas utiliza um blog, ou seja, falando diretamente às pessoas.


Desde quase sempre deixei claro que aqui estou dando forma a um sonho antigo de ver algo publicado no bom e velho formato de livro, com papel, tinta, cheiro, capa, dedicatória e ISBN.


Das várias metáforas que me vêm à mente, quando me refiro ao pequenino trabalho que venho desenvolvendo por aqui, bem como em outros blogs por esse cyberespaço afora, duas me enternecem mais profundamente: a semente lançada ao solo e o caminho.


São imagens fortes e auto-elucidativas.


A semente está lançada, a germinação já é uma realidade. Resta trabalhar, com afinco, persistência e carinho, para que floresça e frutifique.


O caminho está aí, à frente, sendo trilhado aos poucos. Trancos e muitos barrancos se interpõem. Mas é gratificante olhar pra trás e ver que o pouco que já se caminhou é muito mais que o nada da inação. Muito bom reconhecer que não estou "sentado à beira do caminho".


Coincidentemente (ou não intencionalmente) são duas metáforas que encontram respaldo no Novo Testamento. Sem qualquer intenção de conotação religiosa ou sectária. Há os que buscam a santidade e há os que se jactam dela. Meu profundo respeito a todos, indistintamente.




Estão todos convidados!


A todos um fim de semana de PAZ!!!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

GENTE ASSIM



Dia desses, curtindo um desses raros momentos em que a vida nos empresta um nada de tempo pra matutar, enquanto a estrada passava pela janela do coletivo, arrastando consigo postes, árvores, casas e gentes de todo tipo, cerrei os olhos pra enxergar melhor e pus-me a imaginar de que tipo de gente eu gostava mais. Afinal de contas, gente é um bicho pra lá de complicado: tudo do mesmo gênero e espécie, mas cada um com sua mania de achar que é um universo em si.


A primeira imagem que me veio à mente foi do Super Homem. Aquele, vivido pelo Cristopher Reeve, nem sei quanto tempo faz, quando ainda existia Cine Broadway e tantas delícias mais. Tenho que confessar aqui, mas não contem pra ninguém, que foi a minha primeira visita ao cinema, e é claro que toda aquela aura de novidade influenciou sobremaneira a maneira como vi o filme e o quanto aquilo me afetaria por toda a vida.


É claro que eu queria ser como ele. Afinal de contas, vencer um cara como o Lex Luthor, salvar o mundo e ainda derrotar a morte (lembra daquela cena em que a Lois Lane é tragada com carro e tudo por uma enorme fenda no solo e o intrépido mocinho, sem pensar duas vezes, inverte o sentido de rotação do planeta inteiro, fazendo voltar o tempo e ressuscitando a mulher amada? Passei horas incontáveis e deliciosas dando as mais convincentes explicações científicas para o inusitado feito.) não era mesmo tarefa pra qualquer um. É claro que até hoje eu não consigo entender porque um cara que era super em tudo, inclusive na inteligência, insistia em usar a cueca por cima da calça. Nisso eu não queria ser como ele, embora talvez fosse o mais fácil de imitar.


Além de estar sempre pronto para salvar o mundo, atento a todo e qualquer pedido de socorro, ainda tinha que disfarçar-se de Clark Kent, dar conta de escrever para o jornal e tomar bronca do chefe sem jamais alterar a voz ou sequer pensar em vomitar aquela famigerada frase que tanta gente com muito menos mérito e condições usaria sem a menor sombra de hesitação: "você sabe com quem está falando?!" Em uma palavra, o genro dos sonhos de qualquer mãe zelosa.


Passou o tempo. Outros heróis vieram povoar meu imaginário; alguns (muito) poucos, ocuparam espaço na minha realidade. Mas o primeiro a gente nunca esquece.


Passou o tempo, como o tempo sempre passa. E não tem Super Homem ou botox que o faça regredir. Os super heróis ficaram pra trás.


Hoje nem o Super Homem é mais o mesmo. Foi promovido a Superman. (Nossos pequenos, desde muito cedo, são doutrinados a reconhecer que MAN é algo muito superior a qualquer homem. E capricham na pronúncia.) Mas continua lá, nos espiando do alto das nuvens, sempre pronto a atender todo e qualquer grito de "HELP".


Ligeiro, astuto e sempre penteado, é desse tipo de supergente que não hesita, nunca titubeia; tem sempre uma resposta pronta pra tudo, seja em sua mente invariavelmente brilhante, seja em seus sempre retesados músculos de aço. Nunca se deixa assolar pela dúvida. E o que é pior, nunca tem preguiça.


Pensando bem, acho que ele continua o mesmo.


Eu é que não gosto mais de gente assim.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

DIA DE OLHAR PRO CÉU





Já andei reclamando algumas vezes sobre o reformismo que querem impor (até agora eu não tive a menor coragem ou disposição de procurar saber quem) em nossa Língua (assim mesmo, com possessivo em primeira pessoa do plural e escrita em maiúscula, para que não paire nenhuma dúvida ou se dê margem a trocadilhos infames – é preciso muito cuidado: hoje em dia, mesmo o mais inocente dos verbetes pode se transformar em ofensa cabeludíssima. Mas é claro que isso depende muito mais de quem lê do que de quem escreve).


Meus pingüins não perderam o trema até hoje e confesso que tentei com bastante ênfase ter idéias sem acento, mas me pareceram insossas e inconsistentes (eu diria esdrúxulas, soaria mais realista); prova disso é o silêncio sepulcral que esta coluna testemunhou nos últimos muitos dias.


Enfim, chega de queixas! Meus tímidos protestos arrebanharam pouquíssimos (mas sinceros) seguidores e nada mudou. Deixemos essas modernidades pra meninada que está sendo alfabetizada agora. Escrevamos certo ou errado, eles terão mesmo que encontrar um motivo pra rir de nós no futuro. Só estou facilitando as coisas.


Peço encarecidamente que não me chamem de adesista. Mas já que já mudou e não tem como voltar atrás, gostaria de convidar os amigos mais atentos a uma análise superficial sobre algo que poderiam (ou deveriam) modificar: os dias da semana.


É "feira" pra lá, "feira" pra cá, e os nossos vizinhos lingüísticos com remissões muito mais elevadas, se não românticas. Tomemos como exemplo os dias da semana em espanhol, italiano e francês, respectivamente, por serem idiomas derivados do latim, como o nosso.


Vejamos:


Segunda feira (com ou sem hífen?) – LUNES, LUNEDI, LUNDI – o dia da Lua.


Terça feira – MARTES, MARTEDI, MARDI – dia de Marte.


Quarta feira – MIERCOLES, MERCOLEDI, MERCREDI – dia de Mercúrio.


Quinta feira – JUEVES, GIOVEDI, JEUDI – dia de Júpiter.


Sexta feira – VIERNES, VENERDI, VENDREDI – dia de Vênus.


Ora bolas! Enquanto nossos parceiros nessa latinidade que canta são semanalmente convidados a olhar para o céu, buscando a inacessível altitude dos astros, nossos dias remetem à xepa, ao regateio e ao tomate meio apodrecido.


No sábado e no domingo eu não mexeria.


Sábado provavelmente deriva do Shabat hebraico e Domingo vem de Dominus, do latim, o que um dia talvez devesse ser entendido como o dia do Senhor. E nessas coisas a gente não deve ficar mexendo muito.


Se bem que em Inglês, Saturday (dia de Saturno) e Sunday (dia do Sol), além de darem continuidade ao raciocínio latino, soam até que bem bonitinhos.


Mas deixa isso pra lá. Já ficou mais que claro que fim de semana por essas bandas é sagrado. Modificar pode gerar uma grita geral, movimentar as massas, gerar uma polêmica indesejada. Longe de nós.


Não se mexe nos fins de semana.


A menos que seja para prolongar.


Mas aí não importa o nome que se vai dar.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

PECADO


Eu já acho um pecado os sete pecados capitais não serem mais sete.


Ficou confuso? É natural. O assunto, desde que foi trazido à baila pela primeira vez, provoca, realmente, muita discussão. E não existe a menor possibilidade de haver muita discussão sem confusão.

Dia desses fiz uma listinha, rabiscada à mão numa folha de rascunho, com os sete pecados tradicionais. Não, não sou tradicionalista. Mas confesso que fiquei muito desapontado quando descobri, pela imprensa, que o Vaticano estava emendando o rol dos abomináveis atos (com muito mais eficiência e agilidade que um certo Congresso).

E meu desapontamento não tem nada a ver com a nova preocupação de ter que pautar minha vida, doravante, de acordo com as novas regras, embora seja interessante imaginar a cena no confessionário (digo imaginar, porque se trata de um dos poucos redutos invioláveis em que os olhos do Grande Irmão ainda não conseguiram pousar):

- Padre, eu fumei um baseado!

O padre se benze, esconjura e já está com a penitência pronta a ser proferida, quando se lembra de perguntar:

- E quando foi a última vez, meu filho?

- Há duas semanas, padre. – faz uma carinha de contrição de fazer inveja a imagem de santo.

- Pode ir em paz, meu filho. E que o Senhor o acompanhe.

- Eu estou perdoado?

- Não tem o que perdoar, filho. Há duas semanas o novo código ainda não havia sido publicado. Vá e não fumes mais.

Apenas acho SETE um número muito mais charmoso que dez, onze ou sabe-se lá quantos.

Voltando à minha listinha, já me foi um exaustivo trabalho de puxar pela memória relacionar os bons e velhos sete pecados, que são por quase todos conhecidos desde São Tomás de Aquino:

PREGUIÇA, INVEJA, GULA, SOBERBA, IRA, AVAREZA e LUXÚRIA.


Marquei a lápis e muito discretamente um X ao lado daqueles que eu acho que cometo - preferi deixar de lado os que o ZÔTO (lembra dele?! – nunca se esqueça dele) acha que eu cometo – e me propus a escrever uma breve resenha sobre cada um. Nada de “mea culpa”; apenas uma análise superficial da minha relação de amor e ódio com os temíveis pecados.

Mas na hora em que eu ia começar, me bateu uma preguiça de proporções bíblicas e eu preferi ir fuçar a geladeira, em busca de algum petisco.

E a quem interessar possa, caso possa interessar a alguém, incinerei a famigerada listinha, lançando um pouco mais de monóxido de carbono na atmosfera.

Eu sei que é pecado. Mas foi por uma boa causa.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

TEMPO PERDIDO 2


Ela está sentada em frente à televisão. Nem pisca os olhos. Novela das oito. É um modo de falar, pois todo mundo já deve ter percebido que não existe mais novela das oito. Mas ficou o nome. Ninguém quer falar “novela das nove”. Talvez seja a televisão colaborando inconscientemente (será?!) com a obsessão de dez entre dez pessoas de exercer um maior controle sobre o passar do tempo. Ou não. Devaneios à parte, qualquer que seja o horário em que comece ou termine, naquele lar a novela das oito é sagrada.
Ele folheia um livro com aparente displicência, sentado na cabeceira da mesa da sala de jantar.
Passa várias páginas ao mesmo tempo, percorre com os dedos, parece encontrar o que estava procurando, anota a lápis numa folha de rascunho pousada ao lado, torna a folhear, apertar os olhos, anotar.
Ela desliga a TV. Terminou a novela, vai começar o futebol. Dirige-se à cozinha, para terminar de guardar a louça do jantar.
- O que você está fazendo aí, Anísio?! Que livro é esse?! – ela nunca se satisfaz com uma pergunta de cada vez.
- Uma pesquisa. – ele responde sem levantar os olhos do livro.
- Pesquisando o quê? Que livro enorme é esse?
- Isso é um dicionário, Dores. Estou pesquisando nomes de flores.
- Isso por acaso dá dinheiro, Anísio?!
- Como assim?!
- Fica aí sentado, horas a fio, perdendo seu tempo procurando nome de flor. Não tem mais o que fazer, pelo amor de Deus?!
- Sei lá. Acho bonito e enriquece o vocabulário.
- Ah, sim! Posso até ver a cena: reunião na empresa e você discorrendo para o Doutor Marinho sobre os espécimes da flora brasileira. Tem até graça.
Ele balança a cabeça. Suspira. Sabe que é inútil discutir, quando ela começa com o sarcasmo. Fecha o dicionário, calça os chinelos e levanta-se, arrastando os pés em direção à TV.
- Onde você vai, agora? – ela pergunta.
- Vou ver o futebol, Maria das Dores.
- Agora sim!
Ela quase dá um sorriso, satisfeita, e entra na cozinha.

PERDA DE TEMPO


Ela revirava os olhos, contorcia as sobrancelhas, subia e descia a mirrada bunda na cadeira, fazia muxoxo e resmungava a cada 15 segundos:

- Tsc! Quanta perda de tempo!
A mãe fingia que não ouvia. Continuava em seus afazeres domésticos, como se alheia a todos aqueles protestos pretensamente velados.
E ela prosseguia naquela luta inglória, passando as páginas do livro com quase fúria, bufando feito bode embarcado.
Depois do décimo quarto “tsc” e mais alguns resmungos quase (infelizmente) inaudíveis, a mãe meio que se irrita e resolve perguntar, mais curiosa do que a censurar a filha adolescente:
- Deus do céu, menina! Do que é que você tanto reclama?!
- Eu não agüento isso, mãe! É muita perda de tempo! Um verdadeiro desperdício!
- Isso tudo só porque você está estudando pra ser alguém na vida?
- O que me irrita é esse desperdício de tempo. Tanta coisa mais importante pra fazer e eu aqui tendo que descobrir como um corpo se comporta em cima de um maldito plano inclinado!
A mãe não fazia idéia do que aquilo significava. Apenas procurava não esboçar concordância enquanto enxugava e guardava mais um copo. No tempo dela as coisas eram bem diferentes, embora se lembrasse de muito pouca coisa. A filha prossegue em sua adolescente irritação:
- Você tem idéia do que seja um plano inclinado, mãe?
Ela temia a pergunta. Fez que não ouviu, enquanto fingia procurar alguma coisa no armário sob a pia.
- Pois é! Tanta coisa mais interessante acontecendo pelo mundo afora e eu aqui enfurnada na frente desse livro, tendo que entender um troço que eu tenho certeza de que nunca vai me servir de nada.
Engoliu as páginas que faltavam da matéria. Deu um suspiro aliviado e fechou o livro com raiva.
- Até que enfim.
Largou os livros ali mesmo pela mesa e atirou-se correndo no sofá da sala para ler o último número de Caras.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

VIZINHOS


Eram novos no prédio.


Recém chegados de uma cidadezinha do interior onde o edifício mais alto era motivo de controvérsia, pois uma parte da população dizia que era um prédio de quatro andares, contando o térreo, onde uma grande loja já abrigara todo tipo de estabelecimento comercial e hoje sedia uma igreja, enquanto outra parte, dita mais viajada, insistia que o térreo não conta e que, portanto, o edifício deveria ser considerado como de três andares. Por via das dúvidas o construtor “numerou” os apartamentos e salas comerciais com letras e a fiscalização da prefeitura adorou não ter que entrar formalmente na discussão sobre a quantidade de andares de tal prédio.

Mas nosso jovem casal acabara de transferir-se para a cidade; ele para tomar posse na repartição pública em que ingressava após ser aprovado muitíssimo bem colocado no último concurso público; ela, acompanhando o marido, casados de pouco que estavam, buscando uma forma de concluir os estudos e quiçá conseguir um emprego decente, para ajudar no orçamento familiar e ocupar o tempo.

O apartamento era um quarto e sala num prédio antigo de oito andares, quatro por andar, localizado em um bairro classe média baixa (no tempo em que isso ainda existia, só pra ter uma idéia do quão antigo era o prédio). A única janela, no quarto do casal, dava vista para lugar nenhum, mas ainda que vislumbrassem o Taj Mahal ou o Corcovado permaneceriam perenemente fechadas, sob pena de acordarem os habitantes soterrados pela poeira preta do asfalto da autoestrada que passava ali nas cercanias.

O pequeno banheiro e a minúscula área de serviço possuíam basculantes que davam para a clarabóia do edifício, de onde chegavam os sons mais variados: algo que parecia ser um papagaio palrando 24 horas por dia em um andar incerto e que, apesar do incômodo e do vocabulário pouco recomendável para menores, trazia doces recordações dos fins de semana no sítio da Vó Nenzinha; uma rádio que permanecia sintonizada por todo o período matinal em um desses programas que só fazem rezar e vender produtos religiosos (o que já trazia recordações da Vó Aparecida e seu indefectível coque); falatórios e mais falatórios, nos mais variados temas (embora não fosse possível distinguir nenhum deles) e tons de voz.

O prédio parecia ter vida própria e ela, enquanto não aparecia o tão esperado emprego e na falta de companhia em seus intermináveis dias solitários confinada no apartamento, dedicava-se com cada vez mais afinco a decifrar a linguagem do lugar, primando por emprestar um rosto, uma personalidade e um temperamento a cada um dos sons que lhe chegavam aos ouvidos.

Já possuía um perfil psicológico detalhado do papagaio e agora debruçava-se sobre uma senhora que tossia muito e parecia se chamar Taciana ou Cassiana, provavelmente no 703.

Mas o que lhe intrigava mesmo era o completo e absoluto silêncio que chegava do apartamento imediatamente superior, o 402. Estava convicta de que um silêncio assim tão eloqüente não se poderia obter naturalmente, mas apenas por quem quisesse ocultar alguma coisa. Nunca ouvira um ranger de porta, uma descarga, um arrastar de móveis, nada que pudesse denunciar a presença de seres viventes naquele apartamento, o que, sem a menor sombra de dúvida, indicava claramente que quem quer que vivesse ali, fosse uma ou várias pessoas, não dava mesmo pra precisar, movia-se com extrema delicadeza para não chamar atenção.

Era cada vez mais freqüente ele chegar do trabalho e encontrá-la com os olhos semicerrados, encostada à basculante que dava para a clarabóia, absolutamente imóvel.

- Meu bem, o que está fazendo aí?!

- Pst!!! Fale baixo! Estou escutando o silêncio do 402.

Ele riu. Sabia que a adaptação à cidade grande estava sendo difícil para ela. Mas recusava-se a compactuar com aquilo e sempre fazia questão de responder em seu tom normal de voz, que nunca fora muito alto, mesmo:

- E enfim conseguiu arrancar algum som do nosso famigerado vizinho?

- Nada. Isso é muito suspeito.

- Meu amor, daqui a pouco você vai estar achando que o apartamento de cima é ocupado por agentes terroristas ou um espião a serviço de Sua Majestade.

- Claro que não, amor. Isso é coisa de gente esquizofrênica.

Ele estava cansado demais pra discutir aquilo outra vez. Até o momento, o máximo de incômodo prático que a nova esquisitice da mulher lhe estava causando era um silêncio quase mortal, ou, quando muito, uns gemidos abafados pelo travesseiro, na hora de fazer amor. Mas nada que comprometesse o funcionamento dos dois como casal. E conversar com a mulher falando aos sussurros não era de todo mau.

Até o dia em que ele chegou em casa do trabalho, cansado como sempre, no mesmo horário de sempre, e encontrou uns garranchos rabiscados às pressas com batom vermelho escuro no azulejo branco da cozinha:

“MEU AMOR, NÃO SUPORTO MAIS ESSE SILÊNCIO. PRECISO FUGIR. NÃO ME POCURE. ENCONTRAREI UMA FORMA DE ENTRAR EM CONTATO. EU TE AMO! P.S. – CUIDADO!!!”

Ele esfregou os olhos, releu, percorreu os dois cômodos da casa, procurando; quem sabe ela, que não era dessas coisas, não resolvera lhe pregar uma peça? Em vão. Tudo estava na mais perfeita ordem, mas nem sinal da mulher.

Correu para o telefone, ligar pra rodoviária, pra polícia, pro manicômio e sei lá pra onde mais e, por último, pra mãe dela. Podia até ver pelo telefone seu ar de misto de quem reprova uma informação recebida e confirma uma tese há muito esperada; cara de “eu sabia”…

Enquanto isso, do outro lado da rua, uma senhora olhava para cima e tentava ler a placa já meio enferrujada, displicentemente amarrada à grade da janela do 402:
“IMOBILIÁRIA AZIMUTE – VENDE OU ALUGA – TEL: 5555 1234”

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

VIA ES

Amigos,
Esta semana aceitei o gracioso convite do amigo Kaiê para colaborar como colunista no www.viaes.com.br.
Eu sempre achei que colunista devia ser o nome do médico que trata da coluna.
Mas o convite me encheu de alegria.
E agora estou me divertindo por lá, também, publicando teztos diferentes dos que têm aparecido por aqui.
Estão todos convidados para uma visitinha!
Um grande dia a todos e muita PAZ!!!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

SÓ MUDOU O NOME?


- Alô?! - ele não estava com a menor vontade de atender quem quer fosse naquele momento, mas o telefone berrava insistentemente. Melhor atender logo. "Se for telemarketing..." -pensou.
Pior, era a irmã, aos berros e soluços. Pode parecer difícil, à primeira vista, alguém berrar e soluçar ao mesmo tempo. Mas ela conseguia.
- Jaime? - e berros e soluços

- Oi, mana. - um entusiasmo capaz de fazer congelar um fondue de queijo. Não conseguiu conter um sorrisinho cínico ao tentar adivinhar o que o Aristides aprontara dessa vez. O Aristides era terrível.

- A mamãe!... - mais berros e soluços

- O que tem a mamãe, Carmem? - pronto, não foi o Aristides. Foi-se o sorrisinho. A mamãe é terrível.

- A mamãe desencarnou, Jaime! - e debulhou-se em lágrimas, berros e soluços.

- A mamãe o quê?! Carmem, pelo amor de Deus, eu não estou entendendo patavina. Você bebeu?!

- Claro que não. A mamãe teve um AVC e desencarnou, Jaime.

- Que história é essa de "desencarnou"? Explica essa história direito.

Ela respira fundo, tenta articular as palavras.

- É que estou frequentando um lugar onde as pessoas não usam o termo "morte", que é muito carregado e dá uma falsa impressão. Eu aprendi que a morte não existe, é apenas uma passagem para um plano diferente, que somos espíritos imortais e que nos encontramos com nossos entes queridos tanto do lado de cá quanto do lado de lá.

- Nossa! Você aprendeu tudo isso?!

- Sim...

- Então por que você está chorando?!

domingo, 9 de agosto de 2009

SUMIDADE


Eles se encontraram no entroncamento da Jerônimo Monteiro com a Costa Pereira, ali onde ninguém sabe qual sinal abre pra quem e muito menos pra quem está fechado.


Ela acabara de atravessar. Ele tentando decidir qual seria o momento exato para fazê-lo.

- Fulano! – ela quase gritou, arreganhando os braços e os dentes, para um abraço e um sorriso.

- Fulana, tudo bem?! Quanto tempo! – não era apenas uma forma de cumprimento (que dessas existem aos milhões por aí); eles realmente não se viam há muito tempo, e só naquele momento ele se apercebera disso. Sinal evidente de que aquela pessoa não estava fazendo a menor falta em sua vida. Mas gentileza sempre, era seu lema.

- É verdade. Por onde você anda? (não era uma pergunta; ou pelo menos não tinha essa intenção, visto que ela não esperou uma resposta, emendando logo uma série de outras frases) O pessoal tem perguntado por você. Eu disse que você havia se tornado uma sumidade…

- Sumidade?! Eu?! Por quê?!

- Uai! Ninguém te vê em lugar nenhum…

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

SANTO DE CASA

Como de praxe, naquela quinta-feira ela recebia as amigas para o chá da tarde. Mania de gente refinada. Não eram muitas e quiçá nem todas fossem amigas, mesmo, mas isso já é uma outra história.
Sentavam-se na sala recém confortável e punham-se a conversar sobre assuntos vários. O que também não vem ao caso. Seria indelicadeza nossa querer saber sobre o que conversam aquelas amigas num chá da tarde. São pessoas refinadas.
Por acaso estava uma folha de papel manuscrita pousada displicentemente sobre o aparador na lateral da sala. Do jeitinho mesmo que ficam os papéis esquecidos, a que não damos muita importância.
Por acaso (quantas coisas boas acontecem por acaso; quanto às más, não sei, não) Verônica passava os olhos pelos porta retratos ali dispostos e bateu os olhos na folha. Tomou-a, leu-a, ajeitou os óculos, releu-a, suspirou e exclamou (essa gente é refinada, mas vive exclamando):
- Amiga, pelo amor de Deus! Quem foi que escreveu isso?!
Ela interrompeu uma frase pelo meio (estava sempre falando), torceu o nariz, olhou para a folha nas mãos de Verônica e respondeu com um breve ar de desaprovação:
- Foi o César. Ele vive me escrevendo essas bobagens. Por quê?! Muitos erros de Português?
- Muito pelo contrário, meu amor! Isto é magnífico. Você tem em casa um raríssimo exemplar de poeta da melhor qualidade. Um verdadeiro parnasiano. E apaixonadíssimo. Que sorte a sua.
É claro que ela nem fazia idéia do que fosse um parnasiano. Em outro contexto poderia achar que era alguma dessas doenças psiquiátricas que vivem descobrindo por aí. Como também é claro que ela não tinha idéia da qualidade dos textos que o César lhe escrevia com grande freqüência. Fingia ler, quando ele lhos entregava com um largo sorriso no rosto, depois enfiava tudo numa pasta.
- Oh, sim, querida. Guardo tudo que ele me escreve a sete chaves numa pasta. Estou até pensando em mandar encadernar. Capa dura e tudo mais.
E durante uns cinco minutos o assunto da roda deixou de ser a vida alheia e passou a ser os poemas do César. Ela entregou a pasta com os manuscritos que guardara a Verônica. Todas passaram os olhos em alguns poemas escolhidos aleatoriamente. Fingiram grande interesse, repetiram com um certo frisson algumas palavras mais rebuscadas e logo voltaram aos assuntos que lhes eram mais caros. Somente a Verônica continuou a ler os textos. Estava terminando uma pós em História da Literatura Lusófona e deliciava-se com o que tinha à sua frente. Era um achado.
Na despedida ainda lhe disse:
- Cuide bem do seu poeta, querida. Ele tem futuro.
- Ah, claro, querida! Cuidarei sim. Eu sempre lhe disse que ele só precisa de um empurrãozinho. E nisso nós somos boas, não é, meninas?
Gargalhada geral. A última daquele agradável chá. Despediram-se e ainda se ouviam alguns comentários esparsos sobre os poemas do César no hall do elevador.
Ela fechou a porta e, antes de recolher a porcelana do chá, acendeu um cigarro e passou os olhos em algumas folhas de papel que estavam sobre a mesinha de centro. E foi guardando-as novamente na pasta, agora de maneira um pouco mais cuidadosa. “Será?” – pensou. Encolheu os ombros. A Verônica sempre fora metida a intelectual. Talvez soubesse o que estava dizendo.
Dias depois, ao chegar da academia, encontrou sobre a mesa de jantar uma folha do bloquinho de notas que ficava ao lado do telefone. Tomou-a com sofreguidão:
“Querida,
Hoje tenho uma reunião importante na filial de Caldeiras.
Devo chegar um pouco mais tarde, mas a tempo para o jantar.
Qualquer problema, me ligue.
Beijos!
César”
Ela leu, releu e novamente. Seus olhos brilharam. Guardou-a cuidadosamente na gaveta do centro do aparador.
Mal podia esperar para mostras às meninas.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

QUATRO E MEIA

Quatro e meia da manhã…
Sábia a criança que pergunta, com o ar da maior inocência do mundo por que chamar-se manhã essa hora tão obscura, em que somente os galos parecem perceber que se avizinha o dia.
Uma alma atormentada tenta esconder-se por entre os desvãos da casa. Passar despercebida, a despeito de seus gritos surdos e incessantes.
Não há fuga. O mais heróico e covarde a se fazer é erguer-se e enfrentar.
Talvez ela ali permaneça para sempre…