terça-feira, 6 de outubro de 2009

PECADO


Eu já acho um pecado os sete pecados capitais não serem mais sete.


Ficou confuso? É natural. O assunto, desde que foi trazido à baila pela primeira vez, provoca, realmente, muita discussão. E não existe a menor possibilidade de haver muita discussão sem confusão.

Dia desses fiz uma listinha, rabiscada à mão numa folha de rascunho, com os sete pecados tradicionais. Não, não sou tradicionalista. Mas confesso que fiquei muito desapontado quando descobri, pela imprensa, que o Vaticano estava emendando o rol dos abomináveis atos (com muito mais eficiência e agilidade que um certo Congresso).

E meu desapontamento não tem nada a ver com a nova preocupação de ter que pautar minha vida, doravante, de acordo com as novas regras, embora seja interessante imaginar a cena no confessionário (digo imaginar, porque se trata de um dos poucos redutos invioláveis em que os olhos do Grande Irmão ainda não conseguiram pousar):

- Padre, eu fumei um baseado!

O padre se benze, esconjura e já está com a penitência pronta a ser proferida, quando se lembra de perguntar:

- E quando foi a última vez, meu filho?

- Há duas semanas, padre. – faz uma carinha de contrição de fazer inveja a imagem de santo.

- Pode ir em paz, meu filho. E que o Senhor o acompanhe.

- Eu estou perdoado?

- Não tem o que perdoar, filho. Há duas semanas o novo código ainda não havia sido publicado. Vá e não fumes mais.

Apenas acho SETE um número muito mais charmoso que dez, onze ou sabe-se lá quantos.

Voltando à minha listinha, já me foi um exaustivo trabalho de puxar pela memória relacionar os bons e velhos sete pecados, que são por quase todos conhecidos desde São Tomás de Aquino:

PREGUIÇA, INVEJA, GULA, SOBERBA, IRA, AVAREZA e LUXÚRIA.


Marquei a lápis e muito discretamente um X ao lado daqueles que eu acho que cometo - preferi deixar de lado os que o ZÔTO (lembra dele?! – nunca se esqueça dele) acha que eu cometo – e me propus a escrever uma breve resenha sobre cada um. Nada de “mea culpa”; apenas uma análise superficial da minha relação de amor e ódio com os temíveis pecados.

Mas na hora em que eu ia começar, me bateu uma preguiça de proporções bíblicas e eu preferi ir fuçar a geladeira, em busca de algum petisco.

E a quem interessar possa, caso possa interessar a alguém, incinerei a famigerada listinha, lançando um pouco mais de monóxido de carbono na atmosfera.

Eu sei que é pecado. Mas foi por uma boa causa.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

TEMPO PERDIDO 2


Ela está sentada em frente à televisão. Nem pisca os olhos. Novela das oito. É um modo de falar, pois todo mundo já deve ter percebido que não existe mais novela das oito. Mas ficou o nome. Ninguém quer falar “novela das nove”. Talvez seja a televisão colaborando inconscientemente (será?!) com a obsessão de dez entre dez pessoas de exercer um maior controle sobre o passar do tempo. Ou não. Devaneios à parte, qualquer que seja o horário em que comece ou termine, naquele lar a novela das oito é sagrada.
Ele folheia um livro com aparente displicência, sentado na cabeceira da mesa da sala de jantar.
Passa várias páginas ao mesmo tempo, percorre com os dedos, parece encontrar o que estava procurando, anota a lápis numa folha de rascunho pousada ao lado, torna a folhear, apertar os olhos, anotar.
Ela desliga a TV. Terminou a novela, vai começar o futebol. Dirige-se à cozinha, para terminar de guardar a louça do jantar.
- O que você está fazendo aí, Anísio?! Que livro é esse?! – ela nunca se satisfaz com uma pergunta de cada vez.
- Uma pesquisa. – ele responde sem levantar os olhos do livro.
- Pesquisando o quê? Que livro enorme é esse?
- Isso é um dicionário, Dores. Estou pesquisando nomes de flores.
- Isso por acaso dá dinheiro, Anísio?!
- Como assim?!
- Fica aí sentado, horas a fio, perdendo seu tempo procurando nome de flor. Não tem mais o que fazer, pelo amor de Deus?!
- Sei lá. Acho bonito e enriquece o vocabulário.
- Ah, sim! Posso até ver a cena: reunião na empresa e você discorrendo para o Doutor Marinho sobre os espécimes da flora brasileira. Tem até graça.
Ele balança a cabeça. Suspira. Sabe que é inútil discutir, quando ela começa com o sarcasmo. Fecha o dicionário, calça os chinelos e levanta-se, arrastando os pés em direção à TV.
- Onde você vai, agora? – ela pergunta.
- Vou ver o futebol, Maria das Dores.
- Agora sim!
Ela quase dá um sorriso, satisfeita, e entra na cozinha.

PERDA DE TEMPO


Ela revirava os olhos, contorcia as sobrancelhas, subia e descia a mirrada bunda na cadeira, fazia muxoxo e resmungava a cada 15 segundos:

- Tsc! Quanta perda de tempo!
A mãe fingia que não ouvia. Continuava em seus afazeres domésticos, como se alheia a todos aqueles protestos pretensamente velados.
E ela prosseguia naquela luta inglória, passando as páginas do livro com quase fúria, bufando feito bode embarcado.
Depois do décimo quarto “tsc” e mais alguns resmungos quase (infelizmente) inaudíveis, a mãe meio que se irrita e resolve perguntar, mais curiosa do que a censurar a filha adolescente:
- Deus do céu, menina! Do que é que você tanto reclama?!
- Eu não agüento isso, mãe! É muita perda de tempo! Um verdadeiro desperdício!
- Isso tudo só porque você está estudando pra ser alguém na vida?
- O que me irrita é esse desperdício de tempo. Tanta coisa mais importante pra fazer e eu aqui tendo que descobrir como um corpo se comporta em cima de um maldito plano inclinado!
A mãe não fazia idéia do que aquilo significava. Apenas procurava não esboçar concordância enquanto enxugava e guardava mais um copo. No tempo dela as coisas eram bem diferentes, embora se lembrasse de muito pouca coisa. A filha prossegue em sua adolescente irritação:
- Você tem idéia do que seja um plano inclinado, mãe?
Ela temia a pergunta. Fez que não ouviu, enquanto fingia procurar alguma coisa no armário sob a pia.
- Pois é! Tanta coisa mais interessante acontecendo pelo mundo afora e eu aqui enfurnada na frente desse livro, tendo que entender um troço que eu tenho certeza de que nunca vai me servir de nada.
Engoliu as páginas que faltavam da matéria. Deu um suspiro aliviado e fechou o livro com raiva.
- Até que enfim.
Largou os livros ali mesmo pela mesa e atirou-se correndo no sofá da sala para ler o último número de Caras.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

VIZINHOS


Eram novos no prédio.


Recém chegados de uma cidadezinha do interior onde o edifício mais alto era motivo de controvérsia, pois uma parte da população dizia que era um prédio de quatro andares, contando o térreo, onde uma grande loja já abrigara todo tipo de estabelecimento comercial e hoje sedia uma igreja, enquanto outra parte, dita mais viajada, insistia que o térreo não conta e que, portanto, o edifício deveria ser considerado como de três andares. Por via das dúvidas o construtor “numerou” os apartamentos e salas comerciais com letras e a fiscalização da prefeitura adorou não ter que entrar formalmente na discussão sobre a quantidade de andares de tal prédio.

Mas nosso jovem casal acabara de transferir-se para a cidade; ele para tomar posse na repartição pública em que ingressava após ser aprovado muitíssimo bem colocado no último concurso público; ela, acompanhando o marido, casados de pouco que estavam, buscando uma forma de concluir os estudos e quiçá conseguir um emprego decente, para ajudar no orçamento familiar e ocupar o tempo.

O apartamento era um quarto e sala num prédio antigo de oito andares, quatro por andar, localizado em um bairro classe média baixa (no tempo em que isso ainda existia, só pra ter uma idéia do quão antigo era o prédio). A única janela, no quarto do casal, dava vista para lugar nenhum, mas ainda que vislumbrassem o Taj Mahal ou o Corcovado permaneceriam perenemente fechadas, sob pena de acordarem os habitantes soterrados pela poeira preta do asfalto da autoestrada que passava ali nas cercanias.

O pequeno banheiro e a minúscula área de serviço possuíam basculantes que davam para a clarabóia do edifício, de onde chegavam os sons mais variados: algo que parecia ser um papagaio palrando 24 horas por dia em um andar incerto e que, apesar do incômodo e do vocabulário pouco recomendável para menores, trazia doces recordações dos fins de semana no sítio da Vó Nenzinha; uma rádio que permanecia sintonizada por todo o período matinal em um desses programas que só fazem rezar e vender produtos religiosos (o que já trazia recordações da Vó Aparecida e seu indefectível coque); falatórios e mais falatórios, nos mais variados temas (embora não fosse possível distinguir nenhum deles) e tons de voz.

O prédio parecia ter vida própria e ela, enquanto não aparecia o tão esperado emprego e na falta de companhia em seus intermináveis dias solitários confinada no apartamento, dedicava-se com cada vez mais afinco a decifrar a linguagem do lugar, primando por emprestar um rosto, uma personalidade e um temperamento a cada um dos sons que lhe chegavam aos ouvidos.

Já possuía um perfil psicológico detalhado do papagaio e agora debruçava-se sobre uma senhora que tossia muito e parecia se chamar Taciana ou Cassiana, provavelmente no 703.

Mas o que lhe intrigava mesmo era o completo e absoluto silêncio que chegava do apartamento imediatamente superior, o 402. Estava convicta de que um silêncio assim tão eloqüente não se poderia obter naturalmente, mas apenas por quem quisesse ocultar alguma coisa. Nunca ouvira um ranger de porta, uma descarga, um arrastar de móveis, nada que pudesse denunciar a presença de seres viventes naquele apartamento, o que, sem a menor sombra de dúvida, indicava claramente que quem quer que vivesse ali, fosse uma ou várias pessoas, não dava mesmo pra precisar, movia-se com extrema delicadeza para não chamar atenção.

Era cada vez mais freqüente ele chegar do trabalho e encontrá-la com os olhos semicerrados, encostada à basculante que dava para a clarabóia, absolutamente imóvel.

- Meu bem, o que está fazendo aí?!

- Pst!!! Fale baixo! Estou escutando o silêncio do 402.

Ele riu. Sabia que a adaptação à cidade grande estava sendo difícil para ela. Mas recusava-se a compactuar com aquilo e sempre fazia questão de responder em seu tom normal de voz, que nunca fora muito alto, mesmo:

- E enfim conseguiu arrancar algum som do nosso famigerado vizinho?

- Nada. Isso é muito suspeito.

- Meu amor, daqui a pouco você vai estar achando que o apartamento de cima é ocupado por agentes terroristas ou um espião a serviço de Sua Majestade.

- Claro que não, amor. Isso é coisa de gente esquizofrênica.

Ele estava cansado demais pra discutir aquilo outra vez. Até o momento, o máximo de incômodo prático que a nova esquisitice da mulher lhe estava causando era um silêncio quase mortal, ou, quando muito, uns gemidos abafados pelo travesseiro, na hora de fazer amor. Mas nada que comprometesse o funcionamento dos dois como casal. E conversar com a mulher falando aos sussurros não era de todo mau.

Até o dia em que ele chegou em casa do trabalho, cansado como sempre, no mesmo horário de sempre, e encontrou uns garranchos rabiscados às pressas com batom vermelho escuro no azulejo branco da cozinha:

“MEU AMOR, NÃO SUPORTO MAIS ESSE SILÊNCIO. PRECISO FUGIR. NÃO ME POCURE. ENCONTRAREI UMA FORMA DE ENTRAR EM CONTATO. EU TE AMO! P.S. – CUIDADO!!!”

Ele esfregou os olhos, releu, percorreu os dois cômodos da casa, procurando; quem sabe ela, que não era dessas coisas, não resolvera lhe pregar uma peça? Em vão. Tudo estava na mais perfeita ordem, mas nem sinal da mulher.

Correu para o telefone, ligar pra rodoviária, pra polícia, pro manicômio e sei lá pra onde mais e, por último, pra mãe dela. Podia até ver pelo telefone seu ar de misto de quem reprova uma informação recebida e confirma uma tese há muito esperada; cara de “eu sabia”…

Enquanto isso, do outro lado da rua, uma senhora olhava para cima e tentava ler a placa já meio enferrujada, displicentemente amarrada à grade da janela do 402:
“IMOBILIÁRIA AZIMUTE – VENDE OU ALUGA – TEL: 5555 1234”

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

VIA ES

Amigos,
Esta semana aceitei o gracioso convite do amigo Kaiê para colaborar como colunista no www.viaes.com.br.
Eu sempre achei que colunista devia ser o nome do médico que trata da coluna.
Mas o convite me encheu de alegria.
E agora estou me divertindo por lá, também, publicando teztos diferentes dos que têm aparecido por aqui.
Estão todos convidados para uma visitinha!
Um grande dia a todos e muita PAZ!!!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

SÓ MUDOU O NOME?


- Alô?! - ele não estava com a menor vontade de atender quem quer fosse naquele momento, mas o telefone berrava insistentemente. Melhor atender logo. "Se for telemarketing..." -pensou.
Pior, era a irmã, aos berros e soluços. Pode parecer difícil, à primeira vista, alguém berrar e soluçar ao mesmo tempo. Mas ela conseguia.
- Jaime? - e berros e soluços

- Oi, mana. - um entusiasmo capaz de fazer congelar um fondue de queijo. Não conseguiu conter um sorrisinho cínico ao tentar adivinhar o que o Aristides aprontara dessa vez. O Aristides era terrível.

- A mamãe!... - mais berros e soluços

- O que tem a mamãe, Carmem? - pronto, não foi o Aristides. Foi-se o sorrisinho. A mamãe é terrível.

- A mamãe desencarnou, Jaime! - e debulhou-se em lágrimas, berros e soluços.

- A mamãe o quê?! Carmem, pelo amor de Deus, eu não estou entendendo patavina. Você bebeu?!

- Claro que não. A mamãe teve um AVC e desencarnou, Jaime.

- Que história é essa de "desencarnou"? Explica essa história direito.

Ela respira fundo, tenta articular as palavras.

- É que estou frequentando um lugar onde as pessoas não usam o termo "morte", que é muito carregado e dá uma falsa impressão. Eu aprendi que a morte não existe, é apenas uma passagem para um plano diferente, que somos espíritos imortais e que nos encontramos com nossos entes queridos tanto do lado de cá quanto do lado de lá.

- Nossa! Você aprendeu tudo isso?!

- Sim...

- Então por que você está chorando?!

domingo, 9 de agosto de 2009

SUMIDADE


Eles se encontraram no entroncamento da Jerônimo Monteiro com a Costa Pereira, ali onde ninguém sabe qual sinal abre pra quem e muito menos pra quem está fechado.


Ela acabara de atravessar. Ele tentando decidir qual seria o momento exato para fazê-lo.

- Fulano! – ela quase gritou, arreganhando os braços e os dentes, para um abraço e um sorriso.

- Fulana, tudo bem?! Quanto tempo! – não era apenas uma forma de cumprimento (que dessas existem aos milhões por aí); eles realmente não se viam há muito tempo, e só naquele momento ele se apercebera disso. Sinal evidente de que aquela pessoa não estava fazendo a menor falta em sua vida. Mas gentileza sempre, era seu lema.

- É verdade. Por onde você anda? (não era uma pergunta; ou pelo menos não tinha essa intenção, visto que ela não esperou uma resposta, emendando logo uma série de outras frases) O pessoal tem perguntado por você. Eu disse que você havia se tornado uma sumidade…

- Sumidade?! Eu?! Por quê?!

- Uai! Ninguém te vê em lugar nenhum…

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

SANTO DE CASA

Como de praxe, naquela quinta-feira ela recebia as amigas para o chá da tarde. Mania de gente refinada. Não eram muitas e quiçá nem todas fossem amigas, mesmo, mas isso já é uma outra história.
Sentavam-se na sala recém confortável e punham-se a conversar sobre assuntos vários. O que também não vem ao caso. Seria indelicadeza nossa querer saber sobre o que conversam aquelas amigas num chá da tarde. São pessoas refinadas.
Por acaso estava uma folha de papel manuscrita pousada displicentemente sobre o aparador na lateral da sala. Do jeitinho mesmo que ficam os papéis esquecidos, a que não damos muita importância.
Por acaso (quantas coisas boas acontecem por acaso; quanto às más, não sei, não) Verônica passava os olhos pelos porta retratos ali dispostos e bateu os olhos na folha. Tomou-a, leu-a, ajeitou os óculos, releu-a, suspirou e exclamou (essa gente é refinada, mas vive exclamando):
- Amiga, pelo amor de Deus! Quem foi que escreveu isso?!
Ela interrompeu uma frase pelo meio (estava sempre falando), torceu o nariz, olhou para a folha nas mãos de Verônica e respondeu com um breve ar de desaprovação:
- Foi o César. Ele vive me escrevendo essas bobagens. Por quê?! Muitos erros de Português?
- Muito pelo contrário, meu amor! Isto é magnífico. Você tem em casa um raríssimo exemplar de poeta da melhor qualidade. Um verdadeiro parnasiano. E apaixonadíssimo. Que sorte a sua.
É claro que ela nem fazia idéia do que fosse um parnasiano. Em outro contexto poderia achar que era alguma dessas doenças psiquiátricas que vivem descobrindo por aí. Como também é claro que ela não tinha idéia da qualidade dos textos que o César lhe escrevia com grande freqüência. Fingia ler, quando ele lhos entregava com um largo sorriso no rosto, depois enfiava tudo numa pasta.
- Oh, sim, querida. Guardo tudo que ele me escreve a sete chaves numa pasta. Estou até pensando em mandar encadernar. Capa dura e tudo mais.
E durante uns cinco minutos o assunto da roda deixou de ser a vida alheia e passou a ser os poemas do César. Ela entregou a pasta com os manuscritos que guardara a Verônica. Todas passaram os olhos em alguns poemas escolhidos aleatoriamente. Fingiram grande interesse, repetiram com um certo frisson algumas palavras mais rebuscadas e logo voltaram aos assuntos que lhes eram mais caros. Somente a Verônica continuou a ler os textos. Estava terminando uma pós em História da Literatura Lusófona e deliciava-se com o que tinha à sua frente. Era um achado.
Na despedida ainda lhe disse:
- Cuide bem do seu poeta, querida. Ele tem futuro.
- Ah, claro, querida! Cuidarei sim. Eu sempre lhe disse que ele só precisa de um empurrãozinho. E nisso nós somos boas, não é, meninas?
Gargalhada geral. A última daquele agradável chá. Despediram-se e ainda se ouviam alguns comentários esparsos sobre os poemas do César no hall do elevador.
Ela fechou a porta e, antes de recolher a porcelana do chá, acendeu um cigarro e passou os olhos em algumas folhas de papel que estavam sobre a mesinha de centro. E foi guardando-as novamente na pasta, agora de maneira um pouco mais cuidadosa. “Será?” – pensou. Encolheu os ombros. A Verônica sempre fora metida a intelectual. Talvez soubesse o que estava dizendo.
Dias depois, ao chegar da academia, encontrou sobre a mesa de jantar uma folha do bloquinho de notas que ficava ao lado do telefone. Tomou-a com sofreguidão:
“Querida,
Hoje tenho uma reunião importante na filial de Caldeiras.
Devo chegar um pouco mais tarde, mas a tempo para o jantar.
Qualquer problema, me ligue.
Beijos!
César”
Ela leu, releu e novamente. Seus olhos brilharam. Guardou-a cuidadosamente na gaveta do centro do aparador.
Mal podia esperar para mostras às meninas.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

QUATRO E MEIA

Quatro e meia da manhã…
Sábia a criança que pergunta, com o ar da maior inocência do mundo por que chamar-se manhã essa hora tão obscura, em que somente os galos parecem perceber que se avizinha o dia.
Uma alma atormentada tenta esconder-se por entre os desvãos da casa. Passar despercebida, a despeito de seus gritos surdos e incessantes.
Não há fuga. O mais heróico e covarde a se fazer é erguer-se e enfrentar.
Talvez ela ali permaneça para sempre…

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

TRÊS LETRINHAS



Estava atrasado, como sempre. Sempre com aquela sensação de que os dias estavam ficando curtos demais para todos os seus compromissos. De nada adiantava culpar a secretária, mas ele o fazia assim mesmo. É grande a sensação de conforto que nos causa o simples fato de ter em quem colocar a culpa. Anotou mentalmente esse pensamento. Talvez fosse interessante discutir com o terapeuta. Talvez não.

Por mais que o edifício de consultórios estivesse vazio naquele horário, o elevador demorava a chegar. Chegou, nono andar. Desceu, procurou a placa de seu psiquiatra (estava completando dois anos de terapia e nunca conseguia ter certeza se devia descer do elevador para a direita ou para a esquerda), dobrou à esquerda e partiu com passos curtos e rápidos.

A meio caminho do 918, um homem impecavelmente vestido abria a porta de um dos consultórios. Embaralhava-se com o imenso molho de chaves, a pasta executiva e o casaco. Ele achou aquilo engraçado, embora não estivesse com tempo de achar nada engraçado.

Embora atabalhoadíssimo com tudo que tinha nas mãos, o estranho dirigiu-lhe a palavra amigavelmente:

- Boa noite! Consultório novo, acabo de me mudar e ainda não me habituei a esse monte de chaves. – e um sorriso franco e aberto, como se se conhecessem há muito tempo.

Respondeu apressado, tentando devolver um sorriso que saiu bastante amarelado, olhou de soslaio para a plaquinha na entrada do consultório novo: Roger Ignacyo Ventura, p.h.D, Numerólogo. Achou estranho, mas estava atrasadíssimo para sua consulta.

Passou a sessão inteira com uma estranha e divertida curiosidade sobre o encontro que tivera no corredor. Jamais confessaria a ninguém, muito menos para o seu terapeuta (o que pensariam dele?!), mas nutria um certo interesse pelos assuntos ditos esotéricos. E ali estava, a apenas 15 passos de distância, um numerólogo. Tinha que ser mais que mera coincidência.

Ao sair de sua consulta, notou que o 912 ainda estava com a porta aberta, apesar de já passar das nove. Atrasou o passo para espiar discretamente como seria um consultório de numerologia num dos endereços mais caros da cidade e quiçá do país. Parou por um instante, o suficiente para o numerólogo, que parecia ocupadíssimo arrumando muitos livros em uma estante de madeira escura virar-se e fazer o convite:

- Olá! Por que não entra e me acompanha num chá? Acabei de preparar.
Hesitou por um instante. Era tarde. Mas não tinha mais nenhum compromisso para aquela quarta-feira. Apenas retornar para o recesso de seu lar. O que, do jeito que as coisas andavam, sempre podia esperar mais um pouco. “Com licença!” e entrou, tentando apreender do ambiente o máximo que podia sem demonstrar demasiada curiosidade.
Arriscou:

- Vejo que ainda está com as mãos ocupadas. Doutor Roger, não é?

- Rogê, francês. E, por favor, deixe de lado o doutor.

- Muito prazer. Demétrio. Não queria incomodar, sei como dá trabalho mudar…

- Não é incômodo nenhum, meu amigo. Mudar dá, sim, muito trabalho. Mas é sempre um dos trabalhos mais gratificantes que um homem pode encontrar em toda a sua existência. Eu, por exemplo…

E discorreu, em breves minutos, sobre toda a sua trajetória, começando pela educação nos mais conceituados colégios do país, pela carreira promissora de financista, chegando a ocupar a cadeira de comando em um dos maiores bancos do país, de seus insucessos conjugais, do fracasso familiar, de como a carreira entrou em franco declínio, até atingir o fundo do poço, da viagem à Índia, dos encontros com os mais iluminados gurus e de como o conhecimento místico modificara sua vida, permitindo-lhe alavancar uma nova carreira. E ali estava ele, agora, aceitando um novo desafio e lançando-se na carreira de numerólogo.
Demétrio estava assombrado. Desde o primeiro instante tivera a impressão de já haver visto aquele rosto em algum lugar, e agora tudo se aclarava: quem estava à sua frente era ninguém mais ninguém menos do que Rogério Venturi, o mais jovem e promissor financista do país há apenas alguns anos, que desparecera misteriosamente sem deixar rastro, após uma série de denúncias nunca confirmadas de escândalos de todo tipo.

Ali estava ele, agora, à sua frente, exibindo um sorriso de vencedor e oferecendo-se para uma consulta rápida e gratuita com seu nome.

- Por que não?! – pelo menos teria uma história interessante para contar aos colegas do banco no dia seguinte.

Ficou olhando enquanto Rogério, ou melhor, Roger, rabiscava umas letras e números numa folha de papel, fazia contas, até que seu rosto se iluminou:

- Meu caro Demétrio, aqui estão as três letrinhas que mudarão sua vida para sempre. A partir deste momento, você se chama Demetryus.

Ele pegou o papel, fingiu interesse ao examinar os resultados, dobrou, colocou no bolso do paletó, agradeceu e partiu. Estava ficando tarde pra voltar pra casa. Até mesmo para ele.

Dirigiu para casa tentando pensar em outra coisa, mas aquele insólito encontro martelava em sua cabeça. Seu lado meio esotérico, que jazia quase esquecido atrás de uma couraça de respeitabilidade e ceticismo, teimava em lhe convencer de que havia algum motivo oculto para que seus caminhos se cruzassem naquela noite.

Nos dias que seguiram tentou não dar importância ao assunto. Não, ele era Demétrio Dias Monteiro, respeitado analista financeiro, com doutorado em Economia em Harvard e um nome a zelar. Mas o assunto não se permitia jogar para escanteio assim tão facilmente, e lhe martelava as idéias tão logo surgia a mais ínfima brecha. Demetryus, Demetryus… por que não?!

Um dia resolveu ceder à tentação e assinar Demetryus em um e-mail que encaminhava a um colega de escritório. Tinha certeza de que ele nem notaria. E tiraria aquela cisma da cabeça de uma vez por todas.

Sentiu-se estranhamente bem ao fazê-lo. E como não causasse nenhum impacto nos destinatários, continuou a fazê-lo, aumentando a cada dia a freqüência. E sentindo-se cada vez melhor. Chegou a pensar em estampar o “novo nome” em seu cartão de visitas, mas deixou para fazê-lo quando acabassem os que ainda tinha na gaveta. Com isso ia se habituando à idéia.

Um dia desapareceu misteriosamente.

Depois de uma semana, sua mulher ligou pra empresa, procurando saber seu paradeiro. Estava começando a demorar demais pra voltar pra casa. Até mesmo pra ele. Mas foi informada de que Demétrio não comparecia ao seu escritório há muitos dias. Não, não estava em nenhuma viagem de negócios pela empresa e que por favor, se tivesse contato com ele solicitasse que procurasse a gerência geral com urgência, porque sua presença era fundamental no fechamento de alguns contratos que ficaram pela metade.

A esposa tentou relaxar, atribuir aquele sumiço à crise de meia idade. Seqüestro não era, afinal de contas ninguém a procurara ou à empresa para o pedido de resgate. Aquele canalha estava aprontando mais uma e desta vez passara dos limites. Era isso. Mas ele lhe pagaria. Caro.

Passaram-se meses sem notícias. Ela já nem se lembrava mais de que um dia tivera um marido. Não era difícil esquecer aquele bastardo. Apenas contava os minutos para que pudesse declará-lo ausente, presumivelmente morto ou o que quer que fosse, pra meter a mão no dinheiro do seguro e tocar a vida.

Um belo dia, enquanto tentava fugir do tráfego passando por uma rua de menor movimento onde nunca estivera, deparou-se com um homem entrando em um prédio antigo e decadente e teve um insight: reconheceria aquele andar mesmo a quilômetros distância. Era ele!

Conseguiu com dificuldade uma vaga para estacionar e entrou correndo no prédio, uma galeria estreita e mal iluminada, com muitas lojas vazias. Ao fundo, um letreiro em neon rosa berrava: Demetryus Coiffeur. Não podia ser. Mas era coincidência demais.

Entrou pela porta de vidro ornamentada com todo tipo de penduricalhos e estacou diante da imagem que se lhe apresentava: seu marido com os cabelos bem mais longos, usando óculos com armação vermelha, enfiado em uma camisa florida de javanesa, bermuda na altura dos tornozelos e um chinelão de couro nos pés, manuseando habilmente um secador de cabelos e uma escova, enquanto conversava alegremente com uma senhora que se submetia aos seus cuidados. Pareciam conhecer-se há anos.

Ela recapitulou mentalmente todos os impropérios que pensara lhe atirar quando o encontrasse. De repente surpreendeu-se com a riqueza que seu vocabulário chulo adquirira. Respirou fundo, contou até 10 algumas vezes e chamou em voz baixa:

- Demétrio?! É você?!

Ele parecia não ouvir. Ela arriscou mais alto:

- Demétrio?! Demétrio?! Que brincadeira é essa?! Sou eu, sua esposa, Amanda.

Ela foi aumentando o tom de voz, chegando a berrar. Em vão. Ele permanecia alheio a tudo o que estava acontecendo.

Não era mais ele.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

ATÉ O CÉU ERA DIFERENTE


Pode chamar do que quiser: zimbório, firmamento, abóbada celeste. Todos esses nomes vim aprender muito mais tarde. Podem ser belos e sonoros, mas não contém a beleza do céu da minha meninice.


Aquele céu tinha lua cheia e lua vazia. E eu podia jurar (criança vive jurando) que via dragão e cavalo. São Jorge mesmo eu nunca vi. Era noite. Devia estar dormindo.

De noite as estrelas tinham um trinado leve e suave e pareciam piscar com muito mais vigor e intensidade.

E avião passando era disco voador.

O céu continua o mesmo.

Sou eu que hoje ando olhando pro chão.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

VIVENDO DAS LETRAS


Depois de algum tempo de relativo sucesso, dois livros publicados e algumas colaborações não remuneradas semanais em periódicos de circulação regional, decidiu que era hora de largar todo o resto e dedicar-se apenas às letras. Não ficara rico até o presente momento, esfalfando-se de trabalhar nas mais variadas atividades. Portanto tinha muito pouco a perder, cria. Estava convencido de que a carreira literária decolaria em sua plenitude, vôo de condor, que o único que lhe faltava para tal era tempo.

Convencera-se de que sua incipiente carreira era um monstrinho recém nascido, exigente e faminto, com a pequena bocarra sempre aberta, chorando por cada vez mais alimento, carinho e cuidados. E de que essa imagem era terna e altamente significativa. E abria sempre um sorriso largo, com os olhos rasos d’água, quando imaginava o pequenino monstro e seus primeiros trinados.

Estava decidido: o mundo precisava ver aquele monstro crescer, avolumar-se, conquistar seu espaço. Sacrificaria seus próprios interesses imediatos em nome dessa sacrossanta missão. Estava preparado para o trabalho árduo e inglório.

Tratou de comprar um computador novo, o último grito da tecnologia mundial. Uma confortável cadeira giratória, mesa, impressora, escâner (deve ser assim que se escreve, embora fique muito estranho). Internava-se durante horas no pequeno cubículo de sua casa que arbitrariamente chamava de escritório e onde nenhuma visita era bem vinda. No máximo e a muito contragosto abria a janela de vez em quando, para que entrasse um pouco de ar fresco. Ademais, permanecia hermeticamente fechado no que considerava seu santuário das belas letras.

Atacava com furor o teclado, escrevendo sobre tudo e qualquer coisa. Não havia limite para a sua capacidade criativa: versos, trovas, cordel, rimas e métrica, hai kais, prosa poética, crônica, conto, contículos. Gostava do humor. Cria-se perspicaz, irônico e ácido e acreditava que o humor era, muito mais que literatura, uma forma de levar a cabo sua missão de abrir os olhos do mundo para o que parecia que só ele estava percebendo.

O projeto do romance continuava martelando em sua mente. Algo sólido, denso, uma trama bem urdida, com personagens fortes, odientos um e sedutores outros, com um desfecho memorável e impactante. Algo que lhe pudesse render a pecha de maldito (venerava a idéia) e fosse digno de um Nobel (embora estivesse certo de que o prêmio seria dado a alguma oobra de menor valor e brilhantismo, por mera perseguição do comitê, o que, por si só já lhe valeria mais que o próprio prêmio). Mas enquanto tais personagens não surgiam bailando convidativos em sua frente, implorando por uma vida, atacava impiedosamente todos os estilos que considerava menores.

Perdeu completamente a noção de tempo e espaço. Passava dias a fio trancado em seu pequeno santuário (que a mulher já começara a chamar de mausoléu, ao que ele respondia com um leve menear de cabeça e um inaudível muxoxo; já era a crítica a infiltrar seus agentes dentro de seu próprio lar), esquecendo-se de comer, tomar banho, barbear-se, essas coisinhas básicas que parecem insignificantes até o dia em que deixamos de fazê-las.

Das despesas da casa, contas a pagar, colégio dos filhos e todos esses pequenos detalhes que tornam a vida tão normal nem tomava conhecimento. Acreditava-se no nirvana da literatura, pairando acima de todas as vicissitudes mundanas.

Até que um dia abriu de supetão a porta de seu escritório, saindo como se sufocasse: os olhos muito arregalados, os cabelos em total desalinho, a camisa aberta, as mãos comprimindo o pescoço e a boca arreganhada, como a exprimir um grito que não se ouvia, o que muitos chamariam um grito surdo, mas que talvez fosse melhor representado por um “grito mudo”.

Tateava pelos móveis da casa, não enxergava , esbarrava em tudo. E balbuciava, repetindo aterrorizado:

- A crise! A crise!

Sim, fora tomado pelo pior dos males que podem acometer um escritor: a crise criativa. Esgotara todos os assuntos possíveis, criara um sem-número de personagens e situações, das mais sem graça às mais cômicas. Até que um dia deparou-se com uma tela completamente imaculada à sua frente e não conseguia digitar uma palavra que fosse.

Em vão tentava buscar em jornais, revistas, sites de fofocas, televisão, algo sobre o que escrever. Mas a sua mente lhe devolvia um silêncio tão ameaçador quanto mil canhões calados.

Após vários encontrões com os móveis da casa, encontrou a saída, escancarou a porta, a luz do sol lhe cegava, cobriu os olhos, mas avançou heroicamente, como quem soubesse aonde ia. Precisava tornar à vida, reencontrar o mundo, o trânsito, os carros, a natureza, ver gente (ainda tinha uma vaga lembrança do que se tratava), buscar no movimento do mundo real alimentos para o seu monstrinho, que já não era mais tão pequeno nem inofensivo.

Partiu. Desapareceu sem deixar rastro.

A mulher só não entrou em desespero porque nem se lembrava mais de como era ter um marido. Mas sentiu-se na obrigação de comunicar seu desaparecimento às autoridades, família e amigos.

Fiquei tocado com a história, afinal de contas poderia (e como) ter acontecido comigo, e iniciei uma tímida investigação particular, usando de todos os meios possíveis para encontrá-lo.

Semana passada me chegou a notícia de um indigente que acampara há semanas na porta da Academia. Após vários alarmes falsos, ainda decidido a não esmorecer, resolvi investigar.

A imagem me chocou: um indivíduo macérrimo, pele e osso, coberto de andrajos do que um dia foram roupas casuais, descalço, o rosto macilento, um olhar vago, perdido, fixo num ponto qualquer entre o nada e lugar nenhum, vastas barba e cabeleira que o assemelhavam a um piteco.

Embora fosse impossível um reconhecimento visual, resolvi me aproximar e puxar assunto; ainda tinha esperança.

Parei à sua frente, esbocei um sorriso, balbuciei o que seria o nome de meu procurado.

Ele levantou os olhos lentamente, arregalou os olhos enevoados, escancarou a boca quase desdentada e implorou desesperado:

- Um trocadilho, pelo amor de Deus!

terça-feira, 28 de julho de 2009

COISAS DE CRIANÇA – AS PRIMEIRAS DESCOBERTAS CULINÁRIAS


foto: torta de café - autoria própria


Comer é bom.


Não. Comer é muito bom!!!

E desde muito cedo eu tomei consciência disso, embora a gula seja o meu segundo pecado capital predileto. Bom, naquela época com certeza era o primeiro disparado.

Se eu disser que sempre fui uma criança afeita à gastronomia vai aparecer gente questionando. Mas foi isso mesmo que acabei de dizer. Ainda sou uma criança. E ainda gosto muito de comer.

O fato é que estou com fome neste momento e de repente me bateu uma certa nostalgia gustativa. Embora muitos defendam o olfato como o sentido mais ligado à memória, a minha neste momento está cheia de sabores da infância. E hoje, menino de idade um pouco mais avançada que sou, por mais que visite os mesmos lugares (os que ainda existam) e saboreie as mesmas iguarias, jamais serão os mesmos.

Hambúrguer, por exemplo, tinha gosto de domingo à noite.

Tenho certeza de que muitos torcerão o nariz: - “Domingo à noite?! Credo!”. É eu também não gosto mais tanto de domingo à noite quanto gostava. Faustão, Fantástico e uma segunda-feira se aproximando um pouco rápido demais; fim do fim de semana. Volta ao ramerrão dos afazeres de gente grande.

Mas os domingos à noite de minha infância quase sempre tinha sabor de hambúrguer (e variações mais avantajadas sobre o mesmo tema) do Beliscão, na cabeça da ponte municipal. E coca cola.

Pizza tinha gosto de aniversário, algodão doce só na festa de Cachoeiro (herança bendita do nosso Rubem) e picolé era praia, férias.

Como bom gourmet mirim, ou um pequeno glutão, como queiram, sempre me interessei pelos bastidores da comida. Vivia “fuçando” na cozinha, observando, bisbilhotando. E acabei aprendendo alguma coisinha do que viria a se tornar o meu hobby preferido: a culinária. Tentei colecionar selos e moedas, mas ambos tinham um sabor horrível.

Lembro-me como se fosse ontem da minha primeira descoberta culinária: pode-se fazer pipoca em casa. Eu não cria no que meus olhos viam. Na minha incipiente mente infantil, pipoca era coisa que só se encontrava na saída da Consolação (a melhor do mundo, com saquinho de papel de seda – nunca mais encontrei uma igual) ou nos carrinhos estacionados ao longo da avenida Beira Rio. Descobrir que podia fazer pipoca em casa foi quase como obter a confirmação irrefutável de que Papai Noel existe.

Outra descoberta sensacional foi o brigadeiro. Reconheço que em todos esses anos, apenas uma ou duas vezes tive a coragem de esperar esfriar, enrolar, passar no chocolate granulado e comer. Quente e na colher fica tão mais gostoso…

Essas duas pequeninas descobertas aguçaram ainda mais meu interesse pelas artes culinárias. E a minha gula. O que alimentou (desculpe) a minha mente percuciente, sequiosa por novos e mais elaborados desafios. Até que um dia cheguei à glória da culinária mirim: a palha italiana. De colher, naturalmente.

Tem também o episódio do bolo de chocolate.

Mas esse eu conto depois.

Minha avó dizia que escrever de estômago vazio faz muito mal.

Ou seria o contrário?

sexta-feira, 24 de julho de 2009

ANACRONISMO – NOVO PROTESTO CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO


Daqui a alguns anos, meu filho vai olhar pra mim e perguntar: “Pai, por que você sempre desenha essas duas bolinhas em cima do “U” de pingüim?”


Não me pergunte por que estaria escrevendo pingüim para o meu filho daqui a alguns anos. Gosto de pingüins. Acho o bicho simpático e pronto. Vai que ele também me pergunta a mesma coisa… já está dada a resposta.

É. Se você chegou até aqui, já deve ter percebido que se trata de mais um protesto contra esse arbitrário acordo ortográfico.

Sim, uma voz clamando novamente no deserto.

Mas não posso me calar diante de tamanha injustiça, afinal de contas, passamos anos a fio queimando pestanas, para um bom domínio da língua (sem trocadilho), e resolvem mudar tudo, lançando-nos sem piedade à condição de semi alfabetizados ou, no mínimo, anacrônicos.

Uma ressalva, justiça seja feita: hífen eu nunca soube quando utilizar ou não. Continuo sem saber, mas agora tenho em quem colocar a culpa, afinal de contas mudaram tudo e nessa idade a gente não aprende mais nada.

Pois eu continuarei a escrever PINGÜIM com trema. Doa em quem doer. Assumo meu anacronismo, até de certo bom grado.

Meu avô era anacrônico.

Escrevia PHarmacia.

E eu achava lindo…

terça-feira, 21 de julho de 2009

DÚVIDA CRUEL


ELE - O Certo é CLÍtoris ou cliTÓris?

ELA - Meu querido, você descobrindo onde fica e sabendo utilizar, pode chamar do que quiser.

PINÓQUIO

Fosse hoje, Gepeto ficaria decepcionadíssimo ao perceber que seu boneco virou gente. Posso vê-lo, agora, os óculos na testa repleta de gotas de suor que ainda cairão, o rosto coberto com as mãos, não quer ver, e a pergunta: “onde foi que eu errei?!”

Fosse hoje, o menino Pinóquio teria não um grilo, que este de há muito não incomoda mais ninguém. Dar-lhe-ia a Fada Azul um sorumbático cupim por consciência, que quiçá lhe levantasse os olhos uma única vez, como a medir a empreitada; e lhe passasse o resto dos dias a roer por dentro, silente e impiedoso.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

DESAFIO


Sentava-se à frente daquela tela vazia e tentava imaginar-se ao pé de uma folha de papel em branco. Mas faltava alguma coisa. As teclas refletiam a luz do teto, todas aquelas ferramentas do editor de texto tão presentes, à mão, solícitas, mesmo, ousaria dizer. Mas sentia uma falta dolorida do ato visceral de empunhar uma caneta, como quem maneja uma espada, ou um punhal. E o momento arquetípico de destruição por que passaram todos os grandes escritores (os da Antiguidade, pelo menos)... reler o que acabou de escrever, esboçar uma careta de enfado, ou asco, tédio, nojo, frustração, sei lá, uma reação qualquer, humana, muito humana, e descarregar toda a sua raiva no ato de amassar com as duas mãos aquela folha que se fez portadora de seu infortúnio. Apertar os dedos com força, como a expurgar com os músculos das mãos e dos braços as idéias vãs, a vida própria que até mesmo as idéias inócuas parecem tomar, à completa revelia do escritor. Esmagar a vergonha do que jamais devera ser sequer pensado, que dizer escrito. E tomar nova folha virgem, nova em folha (trocadilhos...), simbolizando novo começo para um mesmo desafio. Ah, quisera todos entendessem o quão desconcertante uma folha de papel em branco pode ser... ao te analisar com a indiferença de algo que simboliza o vazio total, o vácuo, poder-se-ia dizer, se tal existe ou existisse. Um nada que te olha do alto, irônico e arrogante, como quem diz (ah, esses parênteses! Não existe mal nenhum em ser desafiado por “quem diz”; o pior desafio é aquele que se faz em silêncio. Mas fica a frase, que por ora não tenho folha de papel para amassar e recomeçar): “já que me vais macular, que mo faças com um mínimo de decência”, essas coisas que talvez a maioria das pessoas vá achar que é doideira (loucura seria uma palavra séria demais para isso. Aliás, já repararam que até nos reproches existe uma certa hierarquização?! Abramos aqui novo parêntese: a despeito de todas as neuroses e psicoses já catalogadas, e de todas as que ainda hão de vir, que a Ciência anda profícua em dar nome aos bois, mas existe sempre algo de sério em se chamar alguém de louco. Tachar de loucura o que alguém faz ou fez inspira um certo respeito, uma certa aura de temor, ao passo que a doideira, no mais das vezes, é vista com um certo desdém, como quem reprova uma atitude pueril e inadequada.). Mas ali não está a tal folha de papel a desafiar o escritor, só a tela em branco. O desafio persiste. E o papel venceu mais uma vez.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

EUSÉBIO, O SOMBRA


- Alô, Cida?! Aqui é Dirce, querida. Como vai? Por aqui tudo mais ou menos, querida. Estou te ligando pra ver se você ainda tem o número daquele detetive que você contratou no ano passado, pra seguir o Miranda. Como é mesmo o nome dele? Peraí que estou anotando: Eusébio, o Sombra?! Que horror! E você recomenda os serviços dele? É, você já deve estar imaginando que eu ando desconfiada, né? Pois é. Mas eu prefiro não falar sobre isso agora, querida. A gente se vê no clube na sexta-feira e eu te conto tudo pessoalmente. Um beijo, querida! Tenho que desligar que estão batendo à porta e a empregada está no play com o Afonsinho. Tchau, fofa!


Pelo olho mágico vê um homem de meia altura, rosto anguloso e barba por fazer, óculos raiban modelo aviador com cara de mais de 15 anos de uso, um chapéu panamá de feltro marrom desbotado na cabeça, gravata marrom com bolinhas brancas meio frouxa no colarinho. Pára, pisca os olhos e confere: ele está mesmo lá. E de sobretudo, apesar do calor. Abre a porta meio receosa.

- Pois não?!

- Bom dia! A senhora deve ser Dirce Monteiro Pimenta, brasileira, casada, esposa de Afonso Albernaz Pimenta.

- S-sim… e o senhor, quem é?

- Eusébio, o Sombra, detetive particular, um vosso criado, senhora. – tira os anacrônicos óculos escuros e faz um breve meneio com a cabeça.

- M-mas como?!

- Eu tenho meus métodos, madame. Gostaria de ver meu currículo? – e estende uma pasta que parece tão espessa quanto aquelas Bíblias de capa dura e lateral dourada que estão sempre abertas por aí.

- Não, não acho que seja necessário. Eu já colhi algumas referências sobre o senhor e me parecem suficientes. Mas como foi que o porteiro deixou que o senhor subisse sem ser anunciado?

- Não sou do tipo que se anuncia, madame. Coisas da profissão, a senhora entende… - e dá uma piscadela, levantando leve mas perceptivelmente o canto direito da boca. Os dentes são amarelados.

- O senhor está suando em bicas. Por que não tira o sobretudo? – e quase se arrependeu do comentário; sabe lá Deus o que aquele homem esconderia sob aquela indumentária.

Ele agradeceu, retirou o sobretudo, entrou, sentaram-se, enquanto ele comentava que subir 14 andares pelas escadas não fora nada divertido.

- Oh! Algum problema com o elevador ou isso é alguma técnica profissional de investigação?

- Claustrofobia, madame. Mas vamos ao que interessa. Suponho que esteja desconfiada que o senhor Afonso a esteja traindo e que gostaria que eu reunisse provas suficientes de sua conduta imoral para que a senhora possa depená-lo em um futuro processo de separação. Corrija-me se eu estiver equivocado.

- Uhum!

- Imagino que a senhora venha baseando sua desconfiança em algumas mudanças no comportamento de seu marido e é importante que me relate que mudanças seriam essas, pra melhor condução do nosso trabalho. – puxa um bloquinho surrado de um dos bolsos da calça, um cotoco de lápis e é todo ouvidos a Dirce.

- Na verdade, tenho notado algumas mudanças bastante sutis no Afonso…

- Hum! Essas são as piores!... Mas prossiga.

- Voltou a jogar tênis, tem falado em se matricular em uma academia e o que é pior: tenho achado que ele anda muito alegrinho ultimamente.

Ele não anota nada. Apenas assente com a cabeça e tenta disfarçar as furtivas olhadas para as belas pernas cruzadas dela.

- São sinais claros, madame. Mas vamos desvendar esse mistério em dois tempos. Alguma mudança no quesito cor e modelo de cuecas?

- Não. Ele sempre foi muito tradicional com o vestuário. Samba canção branca de algodão.

- Certo. É do tipo cuidadoso, preocupado em não deixar rastro. Talvez sejam necessários três tempos.

Combinaram os honorários e os detalhes da operação: a comunicação entre eles ficaria restrita ao mínimo imprescindível durante as investigações e nunca via telefone celular. Todos os telefones utilizados pelo traidor seriam grampeados, para gravar conversas comprometedoras. E sigilo absoluto com relação a todos os resultados e material capturado.

Detalhes acertados, parte nosso destemido defensor da família, da moral e dos bons costumes, em busca de sua presa. Trata-se de um idealista, que, naturalmente, trabalha pelo dinheiro, afinal de contas tem mulher e prole pra sustentar. Mas é certo que desempenha com prazer suas funções, pois acredita na família como instituição e na fidelidade conjugal como um dos pilares fundamentais da sociedade civilizada, cristão convicto e tradicionalista que é.

Passada uma semana, toca a campainha do apartamento de Dirce Monteiro Pimenta. A empregada está com o Afonsinho no play. Ela vem atender a porta de robe de chambre. Está se preparando para sair.

Lá está Eusébio, o Sombra, que parece ter passado a semana inteira sem aparecer em casa pra trocar de roupa. O suor empapa-lhe a fronte e o colarinho, a barba está mais por fazer que na primeira visita e, ao tirar os óculos escuros, Dirce nota olheiras profundas.

- Entre, entre, depressa! – num sussurro. – O prédio está infestado de câmeras.

- Com licença… - a voz dele é pesada, arrastada. O ar grave, pensativo.

- Madame, trago boas e más notícias e como é praxe, darei a má notícia primeiro.

Ela arregala os olhos, cobre a boca com as mãos, tenta dizer alguma coisa, mas ele a interrompe. É um profissional. Está acostumado a lidar com situações assim.

- O senhor Afonso Albernaz Pimenta mantém uma relação extraconjugal com uma mulher, com quem tem encontros amorosos com freqüência bastante regular. – abre um envelope pardo surrado (seria o mesmo do currículo?) e começa lhe passar as fotos em diversos ângulos do carro do marido traidor entrando em vários motéis em dias e horários diferentes daquela semana.


Quatro encontros em uma semana. Sabe-se lá como, ele entrega até mesmo uma foto tirada dentro do quarto de um dos motéis, de qualidade bastante prejudicada, em que um casal aparece copulando. – Esta foto está um pouco pobre em qualidade, mas eu posso assegurar que se trata do seu marido…

- Não precisa, seu Sombra! Eu reconheceria essa bunda branca e enorme até mesmo em foto de satélite. E essa mania de transar de meias o desgraçado não perde nem com a amante! O senhor fez um excelente trabalho e agora já tenho tudo de que preciso pra depenar aquele bastardo! Um minutinho só, que eu vou pegar minha bolsa e lhe fazer um cheque.

Entra pisando duro pelo corredor, some por alguns instantes e volta com os olhos vermelhos, o robe em desalinho e a bolsa na mão. Só então se lembra de perguntar:

- O senhor disse que tinha uma notícia boa pra me dar. Que tipo de notícia poderia ser boa, numa ocasião dessas?

Ele dá um sorriso amarelo, triste e pensativo.

- A senhora só vai me pagar a metade do valor combinado de meus honorários.

- Mas por quê?! O senhor fez um excelente trabalho. Rápido, discreto, eficiente, merece até uma bonificação por isso.

- Eu prefiro não entrar em detalhes sobre o motivo do abatimento, se a senhora me permitir. – sua voz é triste, quase um fiapo.

- Bom, vocês, detetives, são mesmo cheios de mistérios. Se o senhor prefere assim, aqui está o seu cheque.

Ele dobra o cheque sem olhar o valor, mete no bolso do sobretudo, agradece pela preferência e dirige-se lentamente à porta, que ele mesmo abre. Antes que ele saia, ela se lembra de uma última pergunta:

- Seu Sombra, eu já ia me esquecendo: e quem é a vagabunda?

Já com o pé direito fora do apartamento, a mão esquerda sobre a cara maçaneta dourada, ele se vira lentamente na direção dela, ergue os olhos do piso e responde em tom quase inaudível:

- A vagabunda… é a minha mulher.


E sai…